Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 177


177 – As más notícias correm depressa, mesmo na prisão. E a notícia da condenação à morte do camarada funcionário não foi exceção. Quando os onze ex-guerrilheiros se inteiraram do sucedido tiveram primeiro um ataque de incredulidade seguido de outro de pânico. Nem queriam acreditar que por coisa tão pouca um comunista dedicado fosse sentenciado com a pena de morte. Que teria ele feito de tão grave para merecer cumprir com destino tão cruel? Além disso, como todos pertenciam ao mesmo grupo de traidores, o mais provável era que a sentença fosse igual para todos. O autêntico bolchevismo, mesmo luso e sulista, a isso estava obrigado.


Como bons comunistas transmontanos, puseram-se a rezar como o faziam os fiéis cristãos do tempo dos romanos condenados a serem lançados às feras. Passaram toda a noite em claro, calculando que fossem também chamados ao camarada juiz para ele lhes ler a sentença. Mas ela não veio, nem nesse dia nem nos seguintes. Essa era a forma de suplício superior. E eles bem o mereciam. Não conseguiram aguentar a tortura, confessando tudo o que lhes veio à cabeça e que eles pensavam poder satisfazer a insaciável curiosidade do Partido e dos seus iluminados líderes. 


Foi-lhes entretanto proposto, como ato de misericórdia, assistirem ao fuzilamento do camarada funcionário. Afinal sempre tinham sido os seus camaradas mais chegados. E também foram eles quem o delatou. Podemos dizer, como eles disseram em sua defesa, que as suas confissões foram obtidas à força da tortura. E foram sim senhor, como todos bem sabemos. Mas, para o caso, o que interessava eram as declarações datilografadas pelo camarada escrivão e assinadas por todos os seviciados. No final de cada depoimento, era bem visível a caligrafia, tremidinha é certo, de cada um deles. Para a justiça, mesmo revolucionária, os papéis é que contam. E para a história ficaram aquelas folhas datilografadas a dois espaços com as declarações dos camaradas explicando que o camarada funcionário era um cobarde que tinha desertado em pleno combate revolucionário, além de que era também responsável por desleixo organizativo, fraqueza ideológica, por inúmeras fugas de informação e ainda por direitismo, imobilismo, centralismo, regionalismo, imobilismo, fracionismo, trotskismo, esquerdismo e seguidismo.


Apesar da cortesia do Partido, e dos seus iluminados líderes, e da inquestionável afirmação revolucionária do convite, todos os camaradas o rejeitaram invocando razões de saúde. Os camaradas do sul apelidaram-nos de cobardes. Eles não conseguiram contestar. Era por demais evidente que lá cobardes eram. Mas a revolução, como todos sabemos, é uma guerra. E nela quem não mata morre. Por isso a escolha tornava-se fácil. Era ele ou eles. E essa coisa da verdade, da honestidade, da honradez e da heroicidade é argumento bom para filmes e para livros de aventuras. Na guerra não se limpam armas. Nem se têm crises de consciência. Entre a vida do outro ou a nossa, está claro que escolhemos a nossa. Sejamos comunistas, democratas, fascistas ou mesmo budistas. A vida é um fim, mesmo que digam o contrário os cristãos, os muçulmanos ou mesmo os fadistas. A vida não é um meio. E os fins justificam sempre os meios, como todos sabemos bem.


O camarada funcionário foi fuzilado de manhazinha, logo depois de lhe terem servido o pequeno-almoço, que ele recusou, para não vomitar no momento da execução. O curioso foi que tanto os camaradas fuziladores como o camarada fuzilado deram vivas ao comunismo ao mesmo tempo e da mesma forma. A revolução tem destes paradoxos. Afinal, ela é feita por seres humanos, mesmo que por vezes não pareça.


As distintas sentenças foram apenas comunicadas aos camaradas traidores ao sétimo dia, como Deus manda.


Nenhum foi condenado à morte. Foram enviados para o Gulag sulista, o Alentejo mais profundo, para programas de reeducação revolucionária. Receberam uma guia de marcha para as Unidades Coletivas de Produção para auxiliarem na reforma agrária com a diretiva expressa de labutarem de sol a sol. 


publicado por João Madureira às 07:45
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