Segunda-feira, 7 de Outubro de 2013

Pérolas e diamantes (58): o humor dos camaleões


Os políticos “aparelhistas” têm a estranha habilidade de formularem os problemas sociais para que uma pessoa seja obrigada a concordar com eles. E fazem-no parecendo que expõem os dois lados da questão de forma bastante objetiva. Mas isso não é verdade.

 

É cada vez mais evidente que o nosso país, e a nossa sociedade, estão prestes a afundar-se. Os sistemas políticos estão profundamente comprometidos com a corrupção, os interesses obscuros e a oligarquia financeira. Já não têm utilidade visível.

 

Os nossos padrões comportamentais, interiores e exteriores, revelaram-se um fracasso. A desgraça é que não podemos, e provavelmente não queremos, ou nem sequer temos a força necessária para mudar o rumo das coisas.

 

O tempo das revoluções já lá vai e, bem vistas as coisas, nem os mais otimistas acreditam nos seus efeitos positivos.

 

Ali, ao virar da esquina, estão os lobos à espera. E um dia eles vão abater-se sobre a nossa existência ultra-individualizada sem apelo nem agravo. Mesmo assim, continuo um democrata social convicto.

 

O meu ceticismo leva-me a que não consiga ter uma opinião favorável sobre as instituições. Eu sei, todos sabemos, que a característica mais marcante da humanidade é a desumanidade do homem face ao homem.

 

O que mais me espanta na nossa sociedade dita democrática e consumista não é a arte ou os progressos científicos que alcançámos. O que me abisma é a indiferença perante a carnificina diária e a estupidez permanente.

 

Os fenómenos políticos e culturais não devem ser programados apenas no sentido de agradarem às pessoas. Vale mais não gostarem de nós, desde que sejamos honestos e competentes naquilo que fazemos.

 

É preferível tentar fazer sempre melhor e falhar estrepitosamente do que jogar pelo seguro e tentar cair nas boas graças de quem quer que seja.

 

Quem me conhece sabe bem que fico satisfeito quando escrevo ou faço alguma coisa que as pessoas apreciam. Mas quando isso não acontece não posso fazer nada para remediar a situação porque simplesmente não faço aquilo que tenho de fazer para obter a sua aprovação.

 

Tal como toda a gente, possuo apenas uma visão limitada de mim próprio, ao passo que qualquer pessoa, ao observar-me de fora, pode alertar-me para uma dimensão que eu não reconheço imediatamente. Para isso servem as pessoas de boa vontade e os amigos.

 

Também sei que o humor, segundo uma teoria recente, é uma forma de esconder uma certa forma de hostilidade.

 

Mas o que mais detesto é essa espécie de camaleões modernos que se dão em todos os ambientes.

 

Fazem-me sempre lembrar Zelig – uma personagem de um filme de Woody Allen, interpretada pelo próprio –, que tão desesperado por ser aceite se torna um homem camaleão capaz de reproduzir a personalidade de qualquer que seja o grupo com que se encontra.

 

Por vezes aventuramo-nos a fantasiar, mas a realidade acaba sempre por nos tramar. Por mais que nos custe, somos sempre forçados a escolher a realidade, em detrimento da fantasia. Mas a realidade acaba sempre por nos magoar. E a fantasia tem o condão de nos fazer enlouquecer.

 

Há pessoas que lutam toda a vida por conseguir troféus, colecionar medalhas ou obter diplomas. Mas uma coisa todos sabemos, eles não mudam a nossa vida, não nos afetam positivamente em termos de saúde, não nos tornam a vida mais longa, nem nos dão felicidade emocional.

 

Tudo aquilo que queremos ver consertado, ou que pretendemos que nos ajudem a conseguir, toda a harmonia e o bem-estar pessoal de que necessitamos são questões que não conseguimos resolver com as maiores honrarias do mundo. 


publicado por João Madureira às 07:45
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