Quarta-feira, 9 de Outubro de 2013

O Poema Infinito (167): a luz densa do tempo

 

Eu te saúdo, ó densidade do tempo. Esse tempo que projeta a alma dos enormes carvalhos e transporta dentro de si a reprodução fantasmagórica dos sonhos. Todas as idades humanas são rápidas. Todo o mar é exaltação. A ressurreição é um turbilhão de astros. O acaso vai muito para além de nós. A terra acelera-se. O ar é agora uma onda de vitalidade. Viajamos dentro da inquietude das árvores. Seguimos dentro dos carreiros densos das nuvens. O vento canta o alongamento dos campos. O sol é uma fonte violenta de luz. Afinal somos pássaros do acaso. Somos as encruzilhadas que se alongam. O nosso planeta densamente povoado é um labirinto redondo. Apesar disso sinto o veludo da tua face sob os meus dedos emaranhados de júbilo. Dentro de nós cresce o tempo que se vira contra nós. Abandonamos o silêncio da idade. Toda a distância abandona a mágoa que transportamos dentro. A noite anula a luz. Dançaremos para sempre entre os nomes que são dias e noites e através da brancura fragmentada dos líquidos. A matéria é incansável. Assim fosse Deus. A nossa voz é tão subtil como uma lenta paixão. Os momentos brilham no nosso interior. Nós somos momentos. Esses nítidos fragmentos da desordem. E da paixão. Essa funda duração do envolvimento da gravitação. Todas as crianças abandonam os monstros que as habitam. A memória esquece tudo. Até o arrefecimento estúpido das palavras. Falaremos da luz, falaremos das árvores, falaremos dos murmúrios. Falaremos da ondulação das águas, da rutilação do mundo, da arte de morrer dentro de uma explosão matemática. Emitimos radiações. Presentemente as janelas estão sossegadas porque conseguiram transmitir o seu endurecimento. Afastamo-nos daquilo que sempre nos afastou. Aprendemos a incandescência da liberdade. A solidão das estrelas. A epifania da desordem. O receio das portas. A lassidão do movimento. O mundo gira dentro da sua menor amplitude. E ama a leveza e o cansaço da geografia das ruínas. Os dias voam como catedrais iluminadas. A solidão agasalha os vestígios. A voz surda dos loucos implode dentro da minha cabeça. Os espelhos já não respondem, perguntam. As asas transformam-se no abismo dos pássaros. Os anjos ficam escuros. Tudo pode recomeçar. Tudo deve recomeçar. As crianças são o centro do mundo. As mães são as mãos incansáveis dentro das casas. As mães são o contacto das mãos. Por isso as tardes ficam acesas. A nossa alegria afoga os rios. E move as pedras. E ilumina o tempo. E revela a imensa fluência do céu. E fixa o brilho dos momentos. E a gravitação das palavras. Todo o excesso de luz magoa a escuridão. É urgente agitar a desordem da paz. A violência das regras. A monotonia densa da música. A cintilação fluorescente do tempo. Ardemos dentro da nossa própria solidão. Os corpos sabem tudo, desde o amor à morte. O amor é uma amplidão. A morte é uma oração. Resta-nos o desejo. As cicatrizes do mar. A água que se abre como uma vulva. 


publicado por João Madureira às 07:45
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