Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 178


178 – O sol. O sol inclemente. Esse sol desolador dava cabo do José. Um transmontano dá-se mal com o astro rei. E com o amarelo. Um transmontano não gosta do amarelo. Um transmontano é de outras cores. Ama outras tonalidades. Um transmontano ama o azul do céu, deslumbra-se com o verde dos montes e alimenta-se do vermelho das carnes e do sangue. Um transmontano é um amante totalitário. Não é de meias tintas. Ou sim ou sopas. Um transmontano não disfarça, assume. Não desculpa, nem se desculpa, age e luta. Ama ou odeia. Não consegue matizar sentimentos. Um transmontano definha fora da sua terra. Um transmontano olha, não deixa que o olhem. Um transmontano não deixa que o transformem num alvo em movimento. Ele é o caçador. Um transmontano dá a camisa, não deixa que lha engomem com artimanhas. Um transmontano não argumenta, diz. Não lacrimeja e geme, chora e grita. Não anda, caminha. Não deixa que o levem, faz caminho caminhando.


O José sentia-se morrer. Ali naquela luz cegueira, que se alimenta de dor e sofrimento, que reduz tudo a uma dimensão plana. O José, o filho da Dona Rosa e do guarda Ferreira, que tinha falado na barriga de sua mãe, perguntava ao Deus da indiferença e do acaso o que tinha feito de mal para merecer tal castigo. Mas Deus não lhe respondia. Ou talvez lhe respondesse, mas apenas com o silêncio. Mas para que serve um Deus silencioso? Para que presta um Deus que se limita a observar e a deixar correr o marfim? Como se justifica um ser superior que nada faz para alterar o curso dos acontecimentos. Será que o totalitarismo ineficaz de Deus justifica o comunismo? Será que os homens prestam? Será que as ideias e a cultura servem para alguma coisa?


Por mais voltas que desse à sua vida nada encontrava de intencionalmente mau. Tinha agido sempre de acordo com o bem e com as suas leis. Nunca tinha feito mal a ninguém.


Quando pregava a bondade de Deus fazia-o com toda a fé. Não matizava os argumentos. Não arranjava desculpas. Não fundamentava desvios. Nem admitia que se arranjassem desculpas para justificar o que não tinha justificação.


Quando pregou a bondade do comunismo fê-lo com todo o ardor revolucionário. Não variava nos fundamentos. Não amanhava pretextos. Não apoiava rodeios. Nem aprovava que se aprontassem evasivas para explicar aquilo que não tinha justificação.


Mas, apesar disso, ou por isso mesmo, tudo lhe saía ao contrário. Os preconceituosos apontavam-lhe a rigidez dos ideais, a incapacidade para embuçar argumentos, a indisfarçável coerência dos princípios, que ele considerava serem de todos mas afinal eram professados apenas por alguns.


O José agia como um cético, mas era extremamente fiel aos princípios, aos compromissos e à amizade. O seu erro, pensamos nós, aqui que ninguém nos ouve, consistia em acreditar profundamente na identidade e na exclusividade de cada ser humano. O seu erro foi ter pensado no início que aqui na terra todos temos de sofrer para atingirmos o paraíso ao lado de Deus que até ao momento do juízo final é cego, surdo e mudo. O segundo erro consistiu em ter considerado que era possível construir o paraíso a partir do poder de homens que tudo veem, tudo ouvem e tudo justificam a seu favor.


Errar todos erramos, mas é verdade que uns erram porque querem, outros porque a isso são obrigados e outros, ainda, porque acreditam na liberdade como um princípio sagrado. A obrigação moral do José impôs-lhe a dúvida. Aos seus camaradas, a dúvida foi-lhes amputada por meio da coação.


É tão bom não ter dúvidas. É tão confortável ter certezas. O problema do José é que via sempre dúvidas nas certezas dos outros.


É tão bom dizer que se acredita. É tão tranquilizador afirmar que se ama tudo e todos quando apenas pensamos em nós próprios. É tão benéfico ser bom pregador. 


Dessem-lhe ao José a possibilidade de prosseguir outro caminho e ele tinha escolhido o mesmo. Os homens coerentes são mesmo assim. Teimosos como burros. Quando lhe colocam em alternativa a conveniência ou a coerência, gente desta teimosia nunca duvida. Escolhe o caminho das pedras.


O José, para seu mal, mas para bem deste relato, escolheu sempre o caminho mais difícil. Nunca se vergou à vontade dos poderosos. Nunca se desculpou com os outros, ou sequer, com as circunstâncias. Nunca se importou de ficar sozinho, nem mesmo quando teve de escolher entre a verdade e a verdade das conveniências.


Mas aquele sol, aquele amarelo, aquele calor que até fazia parar as moscas, punham-no de rastos. Nem sequer tinha fome, apenas sede. E saudades. Saudade da sua terra. Saudade dos seus. Saudade até daquilo que não gostava.


Quando estamos longe daquilo que amamos até os defeitos nos parecem virtudes. A nossa mãe surge-nos como Maria, o pai como São José e os nossos manos como os irmãos de Cristo. As ruas ficam suaves, as árvores límpidas, as aves ficam da dimensão dos anjos e tudo se harmoniza.


O José pensou mesmo em deixar-se morrer. Ali estendido para remorso de quem tanto mal lhe fez e lhe continuava a fazer. Mas considerou que ele não era homem para facilitar a vida aos seus carrascos. Além disso tinha prometido à sua avó que estivesse onde estivesse, quando sentisse a morte por perto teria de ir morrer à sua terra.  


Mas estamos em crer que o que definitivamente salvou o nosso herói da morte foi o humor. 


publicado por João Madureira às 07:45
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