Quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

O Poema Infinito (168): tempo impresso


Já lá vai o tempo em que nos vestíamos com flores de amendoeira e abríamos os cadernos onde escrevíamos a possibilidade infinita dos desejos e onde desenhávamos bibliotecas de livros com páginas azuis. Agora aquecem-nos as mãos sem sabermos bem porquê. E observamo-nos a ler histórias feitas de ternura e repletas de frases redentoras. A idade deu-nos pinceis dourados com que retocamos os sentimentos. O sol mostra-se espalhando os seus raios mesmo à nossa frente. Verificamos os bordados das toalhas e a bondade com que a mãe as bordou. O relógio deita fora as horas. Nós não. Entretanto observámos o horizonte repleto de verde e índigo. Os planetas aproximam-se numa respiração acelerada. As galáxias desesperam. Eu colo-me a ti porque tenho medo, apesar de o esconder. Os objetos dançam. Os nossos corpos ondulam. Fabricamos juntos essa felicidade de instantes que escapa à incerteza. Abraço-te como dantes para poder sentir-te da mesma forma. Tu és a minha imensa excitação. Sinto que voltaremos a nadar nos rios secretos da nossa juventude. Que voltaremos a beijar-nos nos bancos do jardim sem que ninguém perceba. Nada temos a perder. Retenho essa sensação física de ti. A tua adolescência grávida. Tenho saudades de tudo: dos campos, do rio, de te morder os lóbulos das orelhas, de descobrir a cumplicidade do amor, de estar orgulhoso das palavras que te dizia, de te oferecer aves escritas, de acionar o mecanismo amoroso dos dedos, de escolher lembranças, de te responder com flores, de fugir do medo que as crianças têm dos espelhos e dos palhaços, de passear na cidade onde as pessoas disputavam olhares fabulosos, de te soprar beijos inexplicáveis. Escrevia então o mundo com poemas de terra e deixava-me embalar pelo som monótono dos comboios. Guardava, sem o saber, a memória dos dias e da luz do entardecer. A claridade atravessava-nos assustando os anjos. Mergulhávamos em aquários para observar peixes amorosos. Foi quando os teus olhos se transformaram em pérolas. Foi quando ardi pela primeira vez entre as tuas coxas. Onde me alaguei nos teus braços enquanto olhava o céu e as nuvens. Imagino-te vestida de linho como uma fada rural voando sentada em canções infantis enquanto várias crianças correm atrás do gato da vizinha. Todo o fruto é bendito. Todo o vinho é bendito. É a partir daí que as almas se quebram. Daí a necessidade de as lavar em água pura. Amanhecemos quentes e enrolados ainda no sono. Dormimos como o fazem os animais amantes. Verificamos que o tempo está impresso nos nossos corpos. Os sonhos, então enormes, são agora pequenos e cheios de vento. E possuem portas. E escadas. E camas desesperadas. E elmos. E espadas. E coletes de força. E cadeiras moribundas. E janelas bordadas de desespero. E um mar que nunca acaba. E cavalos alados puxando jangadas de pedra. E recreios de escola com bancos e mimosas. E mulheres a lavar a roupa em água gelada. E pombas secas. E deuses que não aguentam a dor nem a alegria. Para sobreviver desenho o teu corpo dentro do meu corpo. 


publicado por João Madureira às 07:45
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Junho 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9


27
28
29

30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Retrato

. Retrato

. 448 - Pérolas e Diamantes...

. Paris - Trocadero

. No Louvre

. No Louvre

. Poema Infinito (461): Ent...

. No Louvre

. No Louvre

. 447 - Pérolas e Diamantes...

. Couto Dornelas

. Couto Dornelas

. Couto Dornelas

. Poema Infinito (460): A t...

. Couto Dornelas

. S. Caetano

. 446 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. Poema Infinito (459): O v...

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. 445 - Pérolas e Diamantes...

. Em Chaves

. Na aldeia

. Vilarinho Seco

. Poema Infinito (458): Vib...

. Na aldeia

. No horta

. 444 - Pérolas e Diamantes...

. Até já...

. Cantorias - Abobeleira

. No Douro

. Poema Infinito (457): Peq...

. Semana Santa - Barroso

. Na conversa

. 443 - Pérolas e Diamantes...

. Em Torgueda

. Ao portão com um sorriso

. Quaresma

. Poema Infinito (456): O v...

. Cozinha Barrosã

. Pastor

. 442 - Pérolas e Diamantes...

. No túnel

. No miradouro

. Na cozinha

. No forno

. No monte

.arquivos

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar