Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 179


179 – O seu recente amigo, muito parecido com o John Cleese, qual Cristo alto, desengonçado e redentor, também ele um comunista carregado de dúvidas, qual cruz sacrificadora, contou-lhe uma anedota que o fez pôr-se em pé e caminhar, como Lázaro.


“Sabes qual é a diferença entre o comunismo e o capitalismo? O capitalismo é a exploração do homem pelo homem… e o comunismo é exatamente o contrário.”


De seguida riram-se como dois perdidos. Os camaradas guardas, sentindo-se provocados, pegaram nos seus bastões e malharam neles como em centeio verde.


O sósia do John Cleese, com o sangue a correr-lhe das chagas, ainda teve fôlego para contar nova anedota: “Camarada José, já chegamos ao comunismo ou as coisas ainda vão piorar mais?”


Como não paravam de se rir, os camaradas vigilantes continuaram a bater-lhes para lhes quebrar o ânimo. Vendo que a coisa não ia lá dessa forma, os guardas resolveram levá-los à polícia política para um interrogatório sério e circunstanciado. Rir do comunismo é a forma suprema de reacionarismo. Aquele par de cínicos estava decididamente a passar as marcas.


Sentados à espera, de estômago vazio e com o corpo moído, o sósia do John Cleese resolveu contar nova anedota. Já que não se podiam alimentar convenientemente, recorriam ao humor para distrair a fome.


Eis a anedota. Uma delegação de camaradas italianos vai visitar o camarada Alberto Punhal. Apesar da sua indiferença protocolar, pois o nosso camarada de cristal abomina o eurocomunismo, os elementos da delegação falam com ele como se fossem amigos e camaradas de longa data. No final vão-se embora cheios de prospetos, pines, emblemas, carregando em sacos decorados com foices, martelos e estrelinhas internacionalistas, pesados volumes contendo as obras completas e anotadas do camarada secretário-geral. Assim que desaparecem porta fora, o camarada Punhal começa a procurar a caneta com que escreveu “Boa noite camaradas, amanhã o sol brilhará para todos nós”, “URSS, o Sol que alumia a Humanidade”, “O Sol do Comunismo aquece o Mundo”, “Marx, o Sol que ilumina a filosofia materialista”, “Lenine, o Sol que dá calor ao marxismo”, “Estaline, o Sol que aclara o leninismo”, etc. Remexe nos papéis, abre e fecha gavetas, mas não a encontra em lado nenhum. Inquieto pela sua reservada e nunca assumida fixação supersticiosa, pega no telefone e chama o novo chefe da polícia política, um zeloso carrasco comunista apreciador incondicional de Beria.


Diz-lhe de semblante carregado: “Perdi a minha preciosa caneta de tinta permanente com que escrevi “Reforma Agrária, a estrela que indica o caminho para o socialismo científico”, “Controle Operário, o Sol da revolução”, “Nacionalizações, o Sol que aquece a nossa nova economia”, “Ditadura do Proletariado, o Sol que nos traz a verdadeira democracia”, “Partido com paredes de vidro, por onde o Sol entra quando quer e os camaradas autorizam”, entre outros. Vai atrás da delegação desses seguidores de Enrico Berlinguer e vê se descobres quem ma roubou”. Ao que o Beria portuga e sulista replicou: “Os Comunistas não roubam.” Azedo, o camarada Punhal retorquiu: “E desde quando é que os comunistas italianos são comunistas. Esses traidores nem sequer socialistas são. Quando muito são sociais-democratas de direita. Mas deixa-te de discussões ideológicas e vai fazer executar a tarefa que te propus.”


O camarada chefe da polícia política acaricia a sua pistola e corre escadas abaixo. Entretanto o camarada Alberto Punhal continua a procurar a sua caneta. Passados alguns minutos olha para debaixo da secretária e vê-a ali deitadinha no chão, como que a descansar do enorme esforço despendido na escrita de tanta prosa revolucionária. Pega de novo no telefone e diz ao seguidor de Beria: “Já encontrei a caneta, a minha mais devota companheira. Por isso podes deixar ir embora os italianos.”


“Agora é tarde camarada secretário-geral. Metade confessou ter levado a sua caneta e a outra metade morreu no interrogatório.”


Novas gargalhadas repartidas irmãmente entre o José e o sósia do John Cleese. Pelo desaforo foram novamente espancados e deixados mais um dia sem comer. E eles, como se nada fosse, conseguiram resistir mais três dias a água e anedotas. Por fim sucumbiram e foram levados em maca para o centro médico da UCP.


Mal se recompuseram, puseram-nos a abrir e a fechar buracos e a executar outras tarefas ridículas e sem sentido com a nítida intenção de os subjugar ainda mais. Separaram-nos dos outros presos políticos, não fossem eles contagiá-los com o seu humor corrosivo. Como a fé move montanhas, também o humor derruba regimes políticos totalitários. E quem não acredita é porque ou não tem fé ou não possui a mínima réstia de humor. 


publicado por João Madureira às 07:45
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