Quarta-feira, 23 de Outubro de 2013

Poema Infinito (169): o menino entre ruínas


Por onde passo as ruínas choram porque já ninguém brinca. Agora é só silêncio. Lembro-me da Alice dançar com os cabelos soltos enquanto ouvia música. Presentemente as coisas morrem dentro de nós. Os homens são misteriosos e as mulheres escondem-se detrás das cortinas velhas das janelas. Agora a música é estranha. Os muros caminham ao lado dos homens. Vamo-nos esquecendo de tudo. Das dádivas. Dos homens que bebem à mesa. Da alma que suporta os poetas. Das flores suicidas. Da espera dos grandes acontecimentos. Das verdades que duram segundos. Das mãos que pintam o tempo de mudez. Das raízes que brotam dos corpos. Dos corpos que se entregam ao tempo. Dos enormes pomares tranquilos. Das mães que cantarolam. Da inútil aprendizagem do ódio. Da trabalhosa arte do amor. Da tranquilidade das casas. Do aroma dos jardins. Da impercetível emoção do desaparecimento. Da incompreensível frescura dos mistérios. Dos rostos descobertos pelo sol. Do prazer da expectativa. Das crianças reclinadas junto ao mar. Do equilíbrio das curvas. Da evocação das paisagens. Das casas que dormem na hora quieta do meio-dia. Dos gritos que permanecem dentro de nós. Do pedido de socorro dos náufragos. Dos sonhos que são lamentos. Do estranho fenómeno das coisas paradas. Dos corpos que chamam. Dos corações que vibram. Atravessamos a infância projetando mais outros dez mandamentos que ofendem particularmente a obediência. As mulheres ficam desertas. As árvores ficam cor de cinza. A chuva dobra os meninos. As folhas movimentam-se. O silêncio volta de novo. Os pássaros assustam-se. Os caminhos ficam indecisos. Chego ainda antes dos meus passos. Um desejo obscuro desafia a imperturbável simplicidade das ruínas. Agora só procuro a paz. Guardo as colinas dentro do meu corpo. Inclino-me dentro das minhas cicatrizes. Encontro restos de orvalho dentro da tua boca. Sinto-me germinar de novo. Afasto de mim as despedidas. As mãos guardam as sementes. Rostos secos habitam agora a minha casa antiga. Tenho desejo das chuvas e de correr pelos caminhos molhados e do frescor dos musgos e dos jardins claros e de ficar em casa encerrado na minha inocência animal e do ar maduro das tardes de domingo e do pressentimento dos frutos e das bocas que são fontes. Sossego na frescura lúcida da terra onde os dias se abrem com a nitidez dos rios. Alguém me quer explicar de novo a vida e a pouquíssima poesia que há no mundo. Eu já tive esse brilho de descobrimento nos olhos. Agora construo estátuas de nuvens para espantar as aves do aborrecimento. Sou um pobre narrador enterrado em memórias quietas. Senta-te a meu lado para que a tarde deixe de ser tão séria. Sorri para mim e deixa que o teu corpo faça uma ligeira curva em cima das flores. Sou um homem ladeado de muros que vê florescer a tarde através de um espelho. Sou para sempre o menino do crepúsculo que escuta o movimento das folhas antes de adormecer. 


publicado por João Madureira às 07:45
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1 comentário:
De Cris a 24 de Outubro de 2013 às 07:06
esse poema retrata altamente tua sensibilidade!

"Alguém me quer explicar de novo a vida e a pouquíssima poesia que há no mundo."

esse mundo aqui é muito pequeno para o teu Universo. porém, conta-me mais sobre esse teu modo ímpar de ver essa pouca poesia?

beijo. Cris.


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