Sexta-feira, 25 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 180


180 – Por causa do seu sentido de humor demasiado apurado, o sósia do John Cleese esteve várias vezes às portas da morte. E o José andou por lá muito perto. É que o humor também tem os seus efeitos colaterais. E pode mesmo provocar a morte. Não só de quem o utiliza como também de quem se deixa contaminar por ele. A piada mortal dos Monty Python é disso a tese de doutoramento perfeita.


Demorou-lhes tempo a recuperação. Alternavam entre o desespero e a exaltação. Entre o riso e o choro. Entre a esperança e o desânimo. Entre o inferno e o paraíso. Entre a vida e a morte. Entre Grouxo Marx e Karl Marx.


Comiam mal, vestiam-se desgraçadamente e trabalhavam como desalmados, muitas vezes labutando de sol a sol, sem tino nem destino. As autoridades comunistas do campo não pretendiam sequer explorar-lhes a sua mão-de-obra, queriam apenas castigá-los, humilhá-los e subjugá-los. Comunista que enfrenta o Partido só pode ter um destino: a completa aniquilação. Com o Partido podemos ir do zero ao infinito. Sem o Partido apenas nos resta a possibilidade de passarmos do infinito ao zero absoluto.


O comissário do povo pretendia despersonalizá-los, reduzi-los à sua insignificância individual, transformá-los em despojos humanos, ridículos e miseráveis. O Partido não tolerava nem as dissidências e, muito menos, o humor. O humor é arrasador, porque o ridículo mata. O humor é o caos. E o escárnio gera a babel.


Já razoavelmente recuperados, os dois amigos foram de novo obrigados a executar tarefas vexatórias, tais como limpar latrinas, e outras de natureza ideológica que os punha à beira de um ataque de nervos, tais como ouvir repetidamente os discursos do camarada Alberto Punhal ou escutar “A Internacional” em todas as línguas do mundo. Durante a noite, antes de dormir e ao levantar, era-lhes exigido rezar, não o terço mas excertos do programa do Partido, dos Estatutos e até do Manifesto Comunista. Para quem aprecia boa literatura e detesta catecismos, temos de reconhecer que tais atitudes eram tão ou mais dolorosas e humilhantes do que a porrada.


Só havia uma forma de manterem a esperança e a sanidade de espírito: continuar a apostar no humor. Por isso começaram a disseminar as anedotas por toda a planície, no maior sigilo. Por vezes ouviam-se nos campos, ou nas celas, fortes risadas que punham os camaradas responsáveis vermelhos de raiva. O que era ridículo. Mesmo irónico. E extremamente caótico.


O chefe da UCP apercebeu-se de que era manifestamente impossível controlar a disseminação das anedotas anticomunistas, mas, mesmo assim, não desistia de perseguir quem julgava andar a contá-las pelos atalhos das planuras ou pela calada da noite. A última que lhe chegou aos ouvidos e o encheu de espanto marxista e raiva leninista, por causa do atrevimento e da profunda ironia, foi a que a seguir contamos, e que fomos encontrar na enorme pasta dos arquivos secretos da extinta Polícia de Defesa do Estado Socialista (PDES), referente ao José. Ei-la.


Alberto Punhal desloca-se sozinho com o motorista na sua limusine blindada logo após uma reunião do Comité Central onde foi discutida a Reforma Agrária, o Controle Socialista dos Meios de Produção, as Amplas Liberdades, o Movimento Operário, o Partido como Vanguarda da Sociedade de Novo Tipo e o Novo Homem Socialista. De repente, vira-se para o motorista, que se arrepia um pouco, mesmo sem querer, e pergunta-lhe com verdadeira cara de secretário-geral do Partido Comunista: “Responda-me sinceramente. O camarada motorista está mais ou menos contente desde o triunfo da revolução portuguesa?” Ao que ele responde com toda a verdade revolucionária de que é capaz: “Sinceramente, camarada Punhal, estou menos.” Visivelmente perturbado pela resposta, o camarada secretário-geral, elevando um pouco a voz, pergunta-lhe porquê? O camarada motorista, porque lhe ensinaram que mentir é feio, responde com a sua verdade: “Olhe camarada Punhal, antes da revolução eu tinha dois fatos. Mas agora só tenho um, que é este que trago vestido. Depois de um breve silêncio meditativo, o camarada secretário-geral, argumenta: “Olhe, camarada, em vez de estar triste devia estar contente. É que isto é tudo muito relativo. Então não sabe que em África a maioria das pessoas anda completamente nua?” “A sério?”, interpela incrédulo o camarada motorista. “Há quanto tempo tiveram eles a sua revolução?”


Diz quem sabe que nessa noite não houve ensopado de borrego, quase sempre sem borrego, para ninguém, pensando, o camarada chefe do cárcere, dessa forma, provocar um enorme tumulto que lhe servisse de pretexto para poder reprimir os presos sem apelo nem agravo. Mas os reacionários preferiram ficar calados em vez de gritar a sua indignação. Pois podiam ser reacionários mas não eram burros. Durante a noite resolveram semear no vento que passa a anedota que retratava bem o estado a que tinha chegado a UCP, depois dos camaradas terem consumido todo o cereal, até o destinado à sementeira, e de terem devorado todos os animais da exploração, incluindo os destinados à reprodução.


Ei-la, a anedota. Alberto Punhal, o camarada de cristal, está no seu Gabinete no Palácio de São Bento, batizado recentemente de Palácio Baleizão, e repara que há muitos ratos. Queixa-se a Costa Gomes. O presidente da República reflete durante algum tempo, que, no seu caso, quer significar várias horas. A seguir ao chá e aos scones, pega no telefone vermelho e aconselha: “Camarada Punhal, porque não coloca na porta um dístico a dizer “Unidade Coletiva de Produção”? Assim metade dos ratos morre de fome e a outra metade há de fugir.


Quando a anedota chegou aos ouvidos do camarada capataz, este mobilizou de imediato a milícia do campo e ordenou que todos os elementos subversivos fossem acordados durante a noite e torturados até confessarem quem tinha sido o autor da heresia. Primeiro, a totalidade negou identificar o mensageiro. Depois todos admitiram ser os propagadores da anedota. Por vezes, a resistência contra a repressão nasce das mais pequenas coisas.


O sósia do John Cleese, entre o delírio e o desespero, resolveu contar nova anedota antes de desfalecer em frente do seu carcereiro, que era um avô babado e que exibia o seu neto como o melhor dos camaradas pioneiros, gabando-lhe o cargo de secretário do comité central da organização infantil.


“Ó camarada avô, ainda existirá polícia quando chegarmos ao comunismo?”


“Não, camarada neto, nessa altura já as pessoas aprenderam como se prender a elas próprias.”


Bem, está bom de ver que o sósia do John Cleese levou tantas na focinheira que sofreu três KO múltiplos antes mesmo de cair definitivamente inanimado no chão.


Aí o José não se conteve e contou a melhor anedota de todas, pelo menos na nossa opinião, e ela vale o que vale, em honra do camarada inanimado. Ali de pé, como os carvalhos.


Um rebanho de ovelhas é mandado parar por guardas-civis na fronteira com a Espanha. Os agentes da autoridade do país vizinho perguntam: “Porque é que querem sair da República Popular de Portugal?” “É o PDES”, respondem as ovelhas aterrorizadas. “O Beria português mandou prender todos os burros.” “Mas vocês não são burros.” “Vão os camaradas guardas-civis dizer isso ao Beria e à PDES.” 


publicado por João Madureira às 07:45
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