Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

Pérolas e diamantes (61): intelectuais e… intelectuais

 

Todos o sabemos, Portugal não é um bom país para intelectuais. Por isso é que eles não abundam por cá. E os que existem são olhados de soslaio ou são mesmo vítimas da má-língua e do escárnio.

 

A palavra “intelectual” é utilizada em Portugal sobretudo para denegrir e quase nunca para elogiar. Chamar intelectual a alguém é uma forma de insulto. Um intelectual é alguém que tem a mania que lê, que escreve e que pensa pela sua cabeça. Além disso, um intelectual é sempre alguém que gosta de se armar em… intelectual.

 

O intelectual é o tipo de pessoa que se deve evitar porque é determinado, obstinado e muito dado à reflexão. E como refletir leva muitas vezes a colocar tudo em causa, o intelectual é, por definição, um agitador.

 

E um agitador desestabiliza, pergunta, responde, inquieta e assusta.

 

E Portugal, sobretudo o Portugal provinciano, assusta-se com a desestabilização, com a inquietação, com as perguntas, com a cultura, com os livros, com a escrita, com as ideias.

 

A excelsa província inquieta-se com a cultura e com os intelectuais, que, por definição, são aqueles que a produzem.

 

Por isso os políticos provincianos utilizam os intelectuais, e a cultura, como arranjos florais para de vez em quando os exibirem em festas e comemorações. Depois aconselham-nos a ir para casa ler e escrever, pois é aí que devem estar, em reflexão, em meditação, escrevendo para a gaveta, esgotando-se no remanso do lar, definhando como bibelôs de estante. 

 

De facto, os designados como intelectuais são bichos estranhos, pouco dados a carreirismos, a subserviências, por isso são tão mal-amados ou mesmo vilipendiados. Eu, em vez de os ver pelo prisma da intrujice e da maledicência, prefiro entendê-los como estão descritos nos dicionários. No da Academia das Ciências de Lisboa, intelectual vem definido como “pessoa que cultiva preferencialmente as coisas do espírito e do entendimento”.

 

O intelectual de gaiola dourada, Vasco Graça Moura, em Agosto deste ano, talvez por causa do calor que se fazia sentir lá por Lisboa, disse uma coisa que me deixou deveras preocupado: “Os intelectuais estão em vias de extinção.”

 

Então agora depois do lince da Malcata e do burro mirandês só nos faltava mesmo os intelectuais portugueses estarem à beira da extinção.

 

E ainda mais preocupado fiquei quando na sua entrevista afirmou textualmente: “Sinto-me próximo do Presidente Cavaco Silva. Apoio-o desde 1986 e acho-o o maior político português desde 74.”

 

Não só os intelectuais portugueses estão à beira da extinção como um dos seus mais dignos representantes na pátria de Camões foi atacado por uma doença rara, pois considerar Cavaco Silva como o melhor político português depois de 1974 só é possível em pleno estado alucinatório ou de loucura galopante.

 

Talvez seja por isso que foi escolhido para presidente do Centro Cultural de Belém. Cá se fazem cá se pagam. 

 

Afinal Vasco Graça Moura só é um verdadeiro intelectual quando o Partido Socialista está no poder. Nessas alturas enche-se de razões e zurze neles com a determinação dos visionários. Quando o PSD chega ao poder, lá vai ele lampeiro sentar-se numa cadeira dourada e, a partir daí, tecer loas a tudo quanto é figura laranja destacada no aparelho do Estado. Podemos dizer que Vasco Graça Moura é o verdadeiro intelectual do PSD.

 

Mas deixem-me passar a uma intelectual muito em voga nos dias de hoje, Clara Ferreira Alves. Na revista do Expresso, revoltando-se, e bem, contra os escritores injustamente esquecidos pela inteligência portuguesa, escreveu que os novíssimos autores são todos sobrevalorizados. Tanto os que publicaram, como os que publicam e até os que publicarão ou nunca pensaram publicar.

 

A seguir vai atrás dos culpados. Na sua opinião em Portugal não existe massa crítica e muito menos discórdia, pois a única revista literária que se publica em Portugal, a “Ler”, que ela define como um produto do lobby de Francisco José Viegas (com o seu índex de inimigos e desagrados), e um meio pequeníssimo corrompido pela recusa da polémica, “pois toda a gente se conhece e todos dependem uns dos outros, faz com que os autores nunca sejam sujeitos a um juízo literário liberto de constrangimentos e cumplicidades. Que alguns mereciam. A “Ler” institui uma ditadura do gosto e do marketing e exerce um poder de canibalização que ninguém ousa contrariar. No corredor, pratica-se o escárnio e maldizer. E lá vamos andando.”

 

Um intelectual à maneira antiga – daqueles que eu aprecio e venero, Vassili Grossman, cujo livro “Vida e Destino” foi considerado tão perigoso na União Soviética que não só o manuscrito como também as fitas com que foi digitado foram confiscados pelo KGB, permanecendo desaparecido durante vinte anos – escreveu no seu romance “Tudo Passa” este fragmento épico que a todos nos deve pôr a pensar: “A quantidade geral da violência mantém-se sempre igual na terra, enquanto os pensadores tomam o caos das suas metamorfoses por uma evolução.”

 

E ainda mais esta: “As fontes da mansidão correspondem às do fanatismo e da intolerância.”

 

Vassili Grossman, com a ajuda da sua máquina de escrever, pois era também repórter de guerra, foi capaz de colocar em questão não só a violência nazi como também a institucionalização progressiva do nacionalismo, chauvinismo e antissemitismo pelo regime estalinista. Morreu três anos após ter entregado o seu livro e de o ver apreendido pelas autoridades. 


publicado por João Madureira às 07:45
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