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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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10
Jun24

685 - Pérolas e Diamantes: Eufemismos

João Madureira

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George Orwell tinha razão, usam-se os eufemismos na política, na guerra e nos negócios como instrumentos para tornar as mentiras verdadeiras e o homicídio respeitável. A política ao mais alto nível é, mesmo assim, uma intenção de esconder a crueza dos factos com retórica, omissões, complexidade, exclusividade, conceitos e eufemismos. Os estados modernos conseguiram transformar as nossas necessidades em dinheiro. Ou melhor, criaram uma espécie de ideologia das necessidades essenciais para daí obterem lucros astronómicos. A verdade é que até o lixo ou a ecologia dão lucros chorudos. E a obesidade. E a hipertensão. E a diabetes. Primeiro empanturras-te e depois vais à farmácia comprar pastilhas para o desenjoo. Ou a bicicleta para emagreceres. E o capacete protetor e a indumentária e as sapatilhas desportivas e os óculos e as luvas, etc. Já não é a necessidade que cria o órgão. É o capitalismo que cria a necessidade. Os algoritmos direcionados são certeiros. As empresas tecnológicas compreenderam que utilizando a manipulação astuta da cultura da intimidade e da partilha do Facebook, por exemplo, são capazes de aplicar o excedente comportamental não só para satisfazer a procura, mas para criá-la. Os maquiavélicos, ou realistas, se preferirem, dizem uma coisa acertada e provada por séculos de história do poder: na prática, o objetivo essencial de todos os governos é servir os seus próprios interesses e defender e manter o poder e os seus próprios privilégios. Não há exceções. Nem as tais usadas para confirmar a regra. Uma forte oposição e uma opinião pública esclarecida são as únicas formas de refrear esses abusos. Alguém disse, e com razão, que apenas o poder restringe o poder. A “aristocracia democrática” é, na sua maioria, constituída por académicos ou cientistas, burocratas, técnicos superiores, ministros, presidentes de câmara, dirigentes sindicais, técnicos especializados de publicidade, sociólogos, jornalistas, deputados, comentaristas e políticos profissionais. O objetivo do poder é manter o poder. O poder não é um meio. É um fim. As relações de poder são sempre assimétricas, por mais que a “aristocracia democrática” nos tente convencer do contrário. O seu tipo de “linguagem democrática” é apenas um instrumento do seu poder. Está cheia de lugares-comuns. E, como todos sabemos, os lugares-comuns são inimigos da liberdade e da democracia. E aí está o CHEGA para o provar. A Google, por exemplo, que é uma empresa multinacional de softwares e serviços online, aprendeu rapidamente a ser uma espécie de adivinho que se sustenta em elementos que substituíram, em larga escala, os dados fornecidos pela ciência, para conseguirem adivinhar a nossa sorte e vendê-la com lucro aos clientes, mas não a nós. Nós somos o seu produto. A Google adivinha o comportamento dos indivíduos e dos grupos e vende esse conhecimento com lucro. O valor comercial do comportamento humano é enorme. Tudo o que vemos, ouvimos e vivemos é pesquisável. A nossa vida inteira é pesquisável. Vivemos numa sociedade de mercado livre. Esse mercado, em plena sociedade dita democrática, é protegido pelos fossos do secretismo, da ilegibilidade e da perícia. Há operações paralelas e secretas que convertem os excedentes em vendas, ultrapassando os nossos interesses. Ou seja, através da publicidade disfarçada, somos sugestionados a comprar aquilo de que não necessitamos com o velho truque dos preços baixos. Apesar de nos dizerem o contrário, o saber, a autoridade e o poder pertencem ao capital de vigilância, para quem nós não passamos de meros recursos humanos naturais a preço de saldo. As velhas reivindicações do direito à autodeterminação desapareceram dos radares da nossa existência. O circo é o mesmo, os palhaços é que mudaram. Como escreveram Eric Schmidt e Jared Cohen: “O mundo digital não se encontra realmente limitado pelas leis terrestres (…) é o maior espaço mundial sem governo.” Os espaços operacionais estão fora do alcance das instituições políticas. Foram expropriados. Por isso, a democracia dita liberal não passa de uma treta. De uma palhaçada. O circo montado são as redes sociais. Cada um tem direito às suas próprias palhaçadas. Neste circo de marionetas, os fios foram substituídos pelas teclas do computador, ou do iPhone ou do iPad. Por alguma razão, a Google é indiscutivelmente a maior empresa do mundo. E está sempre fora do alcance e do controle dos Estados e das suas instituições democráticas: “Eis a fórmula de Andy Grove (…) As empresas de alta tecnologia andam três vezes mais depressa do que as empresas normais. E o governo anda três vezes mais devagar do que as empresas normais. Portanto, temos um intervalo de nove vezes (…) Logo, deve garantir-se que o governo não se intromete nem atrasa as coisas.” Eles sabem o que andam a fazer. Andam a “circunscrever a democracia”.

06
Jun24

Poema Infinito (716): Ondas de frio

João Madureira

 

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Estou longe do mar e cheiro o longo instante das ondas e o frio das suas águas e vejo o terceiro minuto depois da partida e penso que tudo exige atenção e paciência e que é preciso vigiar o voo das gaivotas e a fé e as suas mudanças de cor e depois o ar começa a pousar sobre a areia e o sal a pegar-se à pele e nós a metermos no bolso o dia acabado de passar e a respirar devagarinho enquanto os pinheiros estremecem e as mulheres vocalizam oscilações e uma espécie antiga de vontade de chorar não de tristeza nem de alegria mas de um terceiro sentimento enquanto os velhos jardineiros tiram de dentro das luvas as suas mãos impregnadas de raízes e caules e folhas e flores e nuvens de forma vagarosa enquanto fecham os olhos para não chorarem e abrem a boca como passarinhos para se alimentarem de memórias que as suas mães lhes deixaram dentro da cabeça e assobiam e respiram e orvalham vaginas sequiosas enquanto a noite se levanta e os dedos dos jovens desmontam pétalas e constroem paciências e falam entre si enquanto os grilos dentro das gaiolas começam a cantar e a comer-se uns aos outros por falta de espaço e os homens retiram da cabeça os chapéus como se fossem indignos de felicidade enquanto escutam sons murchos e então eu finjo acanhamento e delicadeza e imagino campos semeados de ternura e a Marquinhas da Ajuda a rezar o terço e a embaciar a redoma de vidro onde está a sagrada família feita de barro e a avó a acender os pavios de azeite enquanto chove nas pálpebras do pai que continua a fumar enquanto os cães acendem os seus latidos e os rapazes púberes sonham com nádegas das deusas gregas enquanto as mulheres maduras vão a caminho da missa e o sacristão toca o sino e os perus cantam glu glu glu e o sacristão toca dlão dlão dlão e o pai não diz nem sim nem não louvado seja o senhor é o nosso entusiasmo e o nosso fervor e a nossa admiração por Lázaro que depois de ressuscitar logo se foi pentear e pôr brilhantina e eu a colecionar exatidões e declarações proféticas e a fazer crescer e a encolher o sexo como se estivesse distraído ou à procura de algo que é difícil de encontrar como uma vagina aberta à beira-mar enquanto os guerreiros fazem intervalos dos seus dramas e os garotos gritam como se tudo fosse ao mesmo tempo precário e divino enquanto os pirilampos mágicos iluminam nossas senhoras de alumínio pintadas à mão e depois começo a gostar de sopa de nabiças e a dizer palavras que consigo colocar entre parêntesis e a reparar nas rugas do pai e da mãe e a encher os bolsos com rebuçados e a dar migalhas de pão ao pintassilgo e a pendurar-me na porta da cozinha para levantar a espinhela ao mando das orações do Birtelo e depois a apalpar o bolso de trás para apalpar a fisga pronta para intercetar o voo dos pássaros assustados e o enfermeiro à espera que eu desça as calças para ficar com as nádegas ao léu para ele espetar a seringa e eu a marcar olhares e a imitar gestos e a lavar os dentes e o pai a fazer a barba com a gilete e a avó a rir-se para as horas infinitas e tudo a crescer depressa e eu a caminhar devagar e o tempo a crescer e o romance a acabar e o amor a ficar cada vez mais carnal e eu a precisar de silêncio pois o pobre pai começa a morrer tão depressa e a sua morte começa a irromper de súbito pelo meu presente enquanto os acasos se vão formando da soma de várias partículas e a noite a falar comigo e eu a desfazer-me em angústia e a reconhecer cores e cheiros e luz enquanto tudo fala comigo…

03
Jun24

684 - Pérolas e Diamantes: Entre Husserl e Faulkner

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia (1).jpg 

A tese que serve de base à minha escrita, perdoem-me a ousadia, resulta da fusão entre a filosofia alemã (nomeadamente da fenomenologia de Edmund Husserl e também de Heidegger, que foi seu discípulo) e a ficção americana. A guerra que alguns julgam poder existir entre elas é a metáfora que me dá alento. E inspiração. A minha mundividência é essencialmente livresca. Afinal, não passo de um escritor sem posses para percorrer mundo. Os estilos e as ideias deslocam-se, como eu, entre a casa e o trabalho. Para mal dos meus pecados, tudo o que leio é literatura traduzida, pois não domino minimamente o alemão e entendo pouco de inglês. Ou seja, desloco-me entre estes contextos, que são quase como muros. Sartre afastou-me das letras francesas modernas por causa de O Ser e o Nada (L’Être et lê néant). Mas também li que este ideólogo revolucionário conseguia imitar quase na perfeição o Pato Donald. Apesar do seu amor essencial por Simone de Beauvoir, e de ela por ele, apesar do seu estrabismo divergente provocado por uma constipação aos três anos, achava que deviam ambos conhecer também amores contingentes. Mas voltemos ao que interessa. O “nada” sartriano, ou “néant”, se preferirem, levou-me ao “Was Ist Metaphysik?” (O que é a metafísica?) e dali apenas consegui sair a muito custo. Apesar da leitura dessa obra de Heidegger, o que me ficou foi a formulação de Sartre de que os seres humanos não são o que são e são o que não são. Já a literatura americana bateu-me forte com o romance Manhattan Transfer, de John dos Passos, que apreciei pela sua maneira original de representar uma cidade moderna como um palimpsesto de experiências simultâneas, mas descontínuas. Ler filosofia alemã é meio caminho andado para escrever frases destas. Depois daí saltei para Faulkner. E também para Hemingway. E Flannery O’Connor, Steinbeck e Caldwell. A sexualidade da meia idade compreendia através das leituras intermitentes das páginas ímpares dos romances de Philip Roth. Para que se saiba, quase nenhum dos escritores franceses influenciados pela ficção americana tinha ido alguma vez aos Estados Unidos. O conhecimento que tinham acerca da natureza americana resultava da leitura dos romances traduzidos e dos filmes de Hollywood. Mas, como escreveu Louis Menand, “o desvio interpretativo faz parte da transmissão”. Ao contrário de Coindreau, tradutor de Faulkner para francês, considero que os enredos ao estilo “Grand-Guinol”, de horror gráfico e amoral, dos romances do escritor americano, bem assim como a idiotia, os assassínios, as violações, o incesto, o racismo e a depravação em geral, não podem ser ignorados. Ele achava, e a meu ver erradamente, que nas obras de Faulkner, o tema era apenas um pretexto para o desenvolvimento da técnica. Mas, provavelmente, foi o que mais ficou. A escrita de António Lobo Antunes é o prova provada disso mesmo. De facto, Faulkner alcançou uma poderosa representação do tempo vivido ao subjetivar completamente a narração e fazer implodir a distinção entre perceção e memorização. Daí a razão pela qual muitos leitores, eu incluído, têm dificuldade em perceber a sua obra. Para Faulkner, o pensamento era apenas a soma das nossas intenções e o caráter a soma das nossas ações. Já Hemingway nunca entra nas suas personagens. Limita-se a descrevê-las do lado de fora. Os seus heróis nunca se explicam a si mesmos. Limitam-se a agir. Ora isto era a rejeição completa do romance francês, nomeadamente o estilo do paradigmático Proust, cuja especialidade consistia na introspeção e na análise. A maioria dos escritores franceses apostavam na descrição da vida interior. Os americanos apresentavam nos seus livros uma sequência de ações sem comentário, como a cena de um filme. Apenas Faulkner dava saltos desordenados no tempo, porque tinha lido Bergson. Ou seja, coincidia com Proust, porque também ele se tinha inspirado em Henri Bergson. Apesar da sua militância marxista, Sartre, quando esteve no exército, sonhou ser um homem de ação irrefletida. Cito: “O meu trabalhador americano (semelhante a Gary Cooper) poderia fazê-lo e senti-lo. Imagino-o sentado num talude dos caminhos de ferro, cansado, coberto de pó; estaria à espera do vagão dos animais [le wagon à bestiaux], para onde saltaria sem ser visto. E eu teria gostado de ser ele [um homem] que pensava pouco, falava pouco e fazia sempre o que estava certo.”

30
Mai24

Poema Infinito (715): Três vezes...

João Madureira

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Mise em abîme. Um poema ilustração interminável. Onde estou? Onde estamos? A profundidade é perigosa. O que é um sonho? Pois. É. Não sei. Mas sei que pode ser bonito. E também pode ser o contrário. O seu contrário. Todos os slogans gritados são insignificantes. Provocam a ruína interior. Magníficos desenhos não fazem de uma história medíocre uma obra-prima. As pessoas mistério transformam os aspetos negativos em algo positivo. E esse mistério é, em si mesmo, outro mistério. A arte pela arte é uma imitação, uma mise em abîme. Uma imitação interminável. Sei? Não sei se sei. Pois. Isto é um sonho. Isto é um sonho? Isto é um sonho e o seu contrário. Detesto a política porque são sempre as mesmas palavras por uma ordem ou por outra. Uma imitação. Uma mise em abîme. Os olhares falhados reparam em tudo e para nada servem. Veem as pessoas a afastarem-se. A Alice a afastar-se da tribo das crianças. Das áreas rurais. A acreditar nos princípios pentecostais. No estilo de roupa. Nos pecados da Bíblia. Buracos do tempo. Buracos nos sítios. Buracos nas histórias. Apenas a poesia dos poetas fracassados pode ser divertida e perturbadora, pois apenas ela encerra a mais pura ironia melancólica. Os poetas costumam organizar festas de mendigos onde são os principais convidados. Poetas a transformarem-se em mendigos. Mendigos a transformarem-se em poetas. Poetas a exibirem o seu fracasso. Poetas despossuídos. Poetas esquisitos. Poetas incompreendidos. Tudo estranho. Poetas com excesso de angústia. A angústia a transformar-se em luz. Alegorias e símbolos. Desesperos luminosos. Versos luminosos. Palavras luminosas. Só a sua coragem é sombria. Poetas anacoretas. A desfazer narrativas. A desfazer relevâncias. E irrelevâncias. O sexo praticado pelos poetas tem muita raiva incontida. O erotismo a redimir o passado. A resgatar os mortos. A redimir e a nomear os vivos. Vivam as distopias. Quando nos aproximamos do fim tudo tem o sabor do apocalipse. A realidade como enigma. O Aleph a engolir Jorge Luis Borges e a bolsar Vargas Llosa. O Aleph a engolir Juan Rulfo e a regurgitar Gabriel Garcia Marques. A arte é inútil diante da morte e do tempo. Ai a poderosíssima inutilidade da poesia! Daí Hugo Pratt ter o desejo profundo de ser inútil. Faço poesia que não pretende narrar factos, mas transcendê-los. A escrita ou é total ou não vale a pena. O mundo da poesia é líquido. Por vezes a mão do poeta deita fogo às palavras que incendeiam os versos e estes propagam o lume até à combustão dos sentidos. Ninguém consegue apagar as suas mãos em chamas. Nem a chuva, nem a angústia desaparecem. É inverno e a Branca de Neve começou a derreter. A poesia tem a coragem dos fracassados. Por vezes sinto e vejo alguma beleza. Oiço os ecos, as repetições e os delicados ritmos sintáticos que dão eloquência a toda esta narrativa de versos longos e discursivos. Estes jogos de linguagem não são extravagâncias. São apenas subversões de natureza diferente. E eu no meio dos livros, desesperado. A tentar esticar almas. As saudades a voar como se fossem aves de arribação. Como é doloroso não poder tocar um instrumento e amar a música. Sim, Caetano Veloso, os livros são objetos transcendentes. São eles que nos fazem regressar ao Éden. Como se isso fosse possível, meu Deus. Como se isso fosse possível. Como se isso fosse possível. Não te esqueças Pedro, que três vezes me hás de negar antes do galo cantar.

27
Mai24

O especialista

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 8 (8).jpg 

O meu amigo JP é a educação em pessoa. Ou melhor, é um tratado ambulante de boas maneiras e um especialista em subtilezas. Ele expressa toda uma série de condutas e conhecimentos de um modo educado e cortês. É um mesuras, “um querido”, como o evocam as amigas da sua esposa, ou um “certinho”, um “barra”, como o distinguem os amigos. Ou um “picuinhas”, segundo a opinião da minha esposa. Mas a ela tem de se dar algum desconto, pois é muito crítica em relação aos meus amigos. O JP faz as coisas com uma urbanidade digna dos maiores encómios. E foge do antagonismo como o Diabo da Cruz. Ou o Deus verdadeiro da maldade e do pecado original.

O meu amigo dá-se bem com toda a gente. Elogia a conduta das pessoas bem-educadas, aplaude o bom gosto dos burgueses, enaltece o conhecimento dos sábios, exalta o estatuto social dos homens de leis e as individualidades do estetoscópio, gaba os professores eficazes e os bons alunos, eleva os presidentes de câmara que foram galardoados com a comenda no 10 de Junho, dá vivas à República, aplaude a coerência e a perseverança dos monárquicos que ainda o são depois de tantos anos de poder do povo, celebra a democracia, compreende e perdoa o Estado Novo, chora hiperbolicamente com a miséria dos pobres, emociona-se com o canto dos pássaros, com o nascer e o pôr do sol, com os discursos do Presidente da República, com as desculpas do Primeiro-Ministro, com as promessas do Líder da Oposição, adora jantar na companhia daqueles que apreciam, mais do que a qualidade dos manjares, a subtileza do acto cerimonial de comer uma refeição de acordo com a etiqueta e com as leis do protocolo, preza os fatos de lã e de linho de fino corte, entende as combinações das peças de um traje de cerimónia, sabe qual o nó de gravata que dá com os diversos tipos de colarinho, sabe lindos poemas de amor, quer eles sejam dirigidos à natureza, à fauna, à flora, ao amor em tempos de guerra, ao amor em períodos de paz, ao amor espiritual, ao amor carnal e ao amor estrito senso, distingue o bem do mal com muito rigor, apesar de liberal, distingue as classes melhor que um marxista-leninista, aprecia subjetivamente um bom estalinista, preza objetivamente um convicto capitalista, sabe rezar todas as orações dignas desse nome, conduz com um irrepreensível rigor, sabe combinar as meias com os sapatos e estes com as calças (por exemplo, com calças cinzentas devemos usar meias cinzentas, mas também podemos usar meias pretas e o cinto tem de estar de acordo com os sapatos, mas alguns especialistas defendem que o que deve estar de acordo com o cinto são as calças porque os sapatos ficam muito longe) e estas com o blazer e este com a camisa e com o cinto e com a gravata (ou vice-versa) e revela um especialíssimo gosto na escolha dos botões de punho, além disso consulta com apreciável delicadeza e elevado conhecimento técnico uma carta de vinhos, uma carta de águas, uma carta de whiskies, vodkas, ou conhaques, distingue um cordeiro do monte de um borrego do vale logo à primeira mordiscadela, carateriza e destrinça os cogumelos pelo cheiro durante a cozedura ou no acto de os comer, que é quando todos os cogumelos se tornam mais ou menos indistintos, distingue pela pigmentação o salmão fumado de aquacultura do selvagem, diferencia as pessoas não pela cor, mas pela aura, distingue a carne de um porco bísaro de um de marca branca pela textura da carne, diferencia um pato mudo de um que grasna mesmo depois de mortos e depenados, distingue uma linguiça barrosã de uma de Chaves de olhos fechados, sabe quando comer, sabe quando beber, sabe quando deve interpelar alguém à mesa, sabe dizer uma laracha, sabe fungar delicadamente para um lenço, sabe pôr as mãos para beber, comer, urinar, acariciar um rosto, os seios, as coxas e o sexo da sua esposa, sabe beijar a sua mulher e a do próximo sem a cobiçar, sabe cobiçar a mulher do próximo dentro das regras definidas pela boa educação, sabe olhar sem ver, sabe observar sem olhar, sabe mesmo chorar sem sofrer, ou falar sem nada dizer…

Um dia enchi-me de coragem e pedi-lhe para me acompanhar no jantar de celebração do aniversário da minha boda. A sua presença era a modos que metade da prenda que resolvi oferecer à minha mulher. Pagava-lhe o jantar num dos melhores restaurantes do país se ele se dignasse acompanhar-me e assessorar-me em todos os aspectos relacionados com a etiqueta, o protocolo e as boas maneiras. Ele assim fez. Até lhe arranjei companhia: a sua mulher, que ele poucas vezes se aventura a tirar de casa. Tudo por causa da sua irrepreensível boa educação e etc.

Para não fastidiar os estimados leitores, passo, com vossa licença, por cima do especial pormenor da roupagem, não sem antes dizer que trajámos do bom e calçámos do melhor. Mas a qualidade esteve toda concentrada no repasto. Foi muito caro, mas, até por isso, inesquecível. Fomos a um restaurante da capital, de influência anglo-saxónica. Fora o pequeno detalhe do preço, a comida foi escolhida com o saber requintado do meu amigo JP. Amigos destes há poucos. A sua erudição é fruto de quase uma vida inteira de perseverante estudo e de monitorização persistente dos conhecimentos adquiridos, quer através dos livros, quer através de filmes, quer através da internet, quer através da intuição. De facto, o meu amigo JP é muito intuitivo.

Depois de olhar para a carta, disse que ia pedir um prato diferente para cada um de nós. Assim éramos superiormente servidos e sempre podíamos, à falta de melhor tema para conversar, dissertarmos sobre a comida. “E a bebida”, lembrei eu. “E também a bebida”, concordou ele. “Sim”, concordaram igualmente as nossas queridas e estimadas esposas. E se a água escolhida para a sua esposa foi tema de conversa por causa do interessantíssimo preço, então o vinho deu para conversarmos cerca de uma hora (que foi o tempo que esperámos pela comida) sobre a qualidade manifesta do seu odor, paladar, textura e cor. Sobre o preço nada dissemos, por pensar, eu, que era manifestação de mau gosto e ele para tornar evidente que a qualidade está invariavelmente ligada ao custo. E ali não havia especulação. O que se pagava pelo precioso néctar era o real valor e nada mais do que isso.

Para mim encomendou peixe-anjo e lulas ceviche com caviar dourado e empada de arenque fumado com molho de tomates verdes. Para beber como aperitivo encomendou Bellini rosé numa flute de espumante. Para a minha mulher pediu tapas de presunto pata-negra e veado com molho de iogurte, vegetais e pedaços de manga. Para acompanhar exigiu uma garrafa de tinto caro, um vinho argentino que, nas suas doutas palavras de expert “oferece uma adorável profundidade de fruta e é altamente focado, detalhista e elegante". “Nem mais”, disse eu. “Concordo”, concordou a minha mulher. É por essas e por outras que a minha mulher se parece muito com o meu amigo. Os seus níveis de adesão à opinião dos especialistas são assombrosos. Mas adiante. Para a sua mulher, e é nestes pormenores que se aquilata do amor e do carinho que o meu amigo dedica à sua esposa, pediu sashimi com queijo de cabra (e podem pensar que a razão que levou o meu amigo a pedir esse prato para a sua esposa foi a evidência de ela, como transmontana, apreciar o queijo de cabra, mas estão enganados, ela é doida por sashimi, e olhem que estas coisas não se topam logo nos primeiros vinte e cinco anos de casados, só lá para as bodas de ouro, e isso apenas os mais argutos e documentados, como é o caso do meu amigo JP) e pato fumado com endívia e xarope de ácer. Para ele pediu, por causa do regime, vieira recheada e salmão selvagem grelhado com vinagre de framboesa e pera-abacate. Para acompanhar os pratos da nossa dieta solicitou ao empregado uma garrafa de Sauvignon Blanc de 2005. No final encomendou um bolo, pequeno no tamanho, enorme na qualidade e colossal no preço. E para o acompanhar Perriet-Jouët reserva servido em Flutes Fantasy Cristal Atlantis.

Sabem, eu fui educado (enganado?) nos finais dos anos sessenta, uma altura em que o movimento naturalista, muito ao estilo de Rousseau, perguntava: “Porque não havemos de dizer aquilo que pensamos?” Mas numa sociedade civilizada têm de existir algumas restrições. Se seguíssemos todos os nossos impulsos, matávamo-nos uns aos outros.

E foi por essa razão que, quando me trouxeram a conta, paguei com o cartão Mastercard Platinum e comecei a implodir. Mas sempre com um sorriso nos lábios. A convivência com o meu amigo JP tem-me ajudado imenso na hora de expor os meus impulsos. Apesar de o querer matar (metaforicamente, é claro), cumprimentei-o efusivamente (também metaforicamente, claro está) na hora da despedida. Pespeguei dois beijos à esposa do meu amigo pensando que se ela fosse um porquinho mealheiro (alegoricamente, é claro) e visse transformada a comida que levava no estômago em dobrões de ouro (simbolicamente, claro está) era mulher para tilintar como uma slot machine quando dá o prémio máximo.

Quando cheguei à suite do hotel encomendei morangos e um champanhe mais em conta do que o servido no restaurante e fomos (eu mais a minha mulher) para os nossos aposentos. Quando chegou a hora de prestar o exame de aniversário, olhei para ela e disse-lhe que a amava cada vez mais. Ela perguntou-me, cuningulus aparte, se havia nas minhas palavras alguma ironia. Eu disse-lhe que não. Mas nós não devemos dizer sempre aquilo que pensamos. Metaforicamente, é claro.

 

PS – Dedicado especialmente a todos os maridos que, na companhia das suas queridas e estimadas esposas, vão comemorar no próximo inverno as bodas de prata, ouro ou diamante.

Um presente requintado é sempre uma mais-valia para a vida a dois.

Este ano o que está a dar são as peças com pelo e peles. Todos os criadores, por causa do aquecimento global, apresentaram também as suas criações em tecidos sintéticos. Mas se não é ecologista (alegoricamente, claro está), pode decidir-se por malas e sapatos, casacos e até vestidos com aplicações de pelo natural. Pode ainda optar por cabedal em casacos e vestidos.

Por favor assente o nome dos criadores, pois é aí que reside o toque de classe. Para as peças com pelo: Channel, Dolce&Gabanna, Lanvin, Vivienne, Westwood, Kenzo e Marc Jacobs. Para as peças em pele: Hermès, DKNY, Bottega; Venetta, Dior e Céline.

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