Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]
Dizem que a história não se repete, mas eu desconfio. E também asseguram que nos ensina. Eu também duvido disso. Mas. O que sei é que a desigualdade provoca instabilidade. E que os demagogos tiram partido da liberdade de expressão para roubarem, ou se afirmarem como tiranos. Dependendo da conjuntura. Também sei que, através da democracia, alguns líderes e partidos alegam serem os representantes diretos da vontade do povo. Mas não é verdade. A democracia representativa é uma espécie de ficção teatral. Eles representam a peça que escreveram, nós pagamos o bilhete e, no fim, batemos palmas. Tudo isto entre os ciclos eleitorais.
Intervalo.
O povo português é triste e assustado. Mas continua a lutar contra a derrota e o fracasso. A verdade é que este país não interessa a ninguém. O mundo muda. Portugal não. É triste. Mas a verdade não nos serve para nada. Andam-nos sempre a limar as arestas, mas continuamos quadrados como sempre fomos. Andam-nos sempre a repetir que devemos nivelar a indignação. As guerras ganham-se ou perdem-se. Mas nós jogamos sempre para o empate. Somos sempre o carro vassoura da volta do desenvolvimento. Sempre desconsolados. Mas sempre atentos aos ciclistas das equipes líderes do tour, ou da vuelta.
De que cor são os políticos? Cor de burro quando foge. Rio-me. Quando nos rimos não estamos tão sozinhos. Nem tão certos de estarmos enganados.
O desnorteio do mundo é desconcertante. Redundante. E o O’Neill a dar-nos música. Abaixo a literatice dos literatos alimentados pela literatura pedante e rebuscada. E nós a labutarmos nas circunstâncias. Na preguiça de todos os dias. Quando as palavras saltam da folha é difícil de as apanhar. Passamos a vida a fazer fretes. E para quê, pergunto eu? E nós nem assim nem assado. Há que lutar na hora certa. Senão lá se vai a eficácia. Ser da sinistra e ateu continua a ser um dislate. Ou volta a sê-lo. O que é ainda mais preocupante. E o burro a tirar água da nora. Vamos lá então fazer mais um intervalo nesta arte menor de ser videirinho.
E eu a querer pensar numa visita à Capela Sistina para ver o seu teto pintado por Miguel Ângelo e toda aquela cristandade colossal enfiada nos cueirinhos censórios.
No princípio era o Verbo, escreveu São João, com fiel certeza, mas eu estou em crer que não. Será que o Verbo era o Big Bang?
A catequese já lá vai. Agora são os professores de Português que talham nas escolas “Os Maias” em capítulos, personagens, ações, regras gramaticais, regras estilísticas e mais não sei o quê. Dói-me o coração. Chega um homem a reformado para isto! Antes fosse para aquilo. Este país é como um sofá-cama. Não é bem um sofá. E também não é lá grande cama.
A matreirice é muito sedutora.
Mas o nosso destino é sempre o da subalternidade.
Os portugueses descobriram há muito tempo o elixir da felicidade. Quando vencidos, ao fim de uma semana já esqueceram tudo. Quando obtêm uma vitória, registam-na para a eternidade.
Vivam os galos de capoeira.
Portugal é bom a fazer serenatas aos mandões deste mundo. Escolhem-nos sempre para lugares de chefia onde não se decide nada. Nisso os portugueses são exímios, em armar-se até aos dentes de sorrisos. Vá lá, deixem soar as campainhas. É com elas que se chamam os criados.
Nós somos uma nação vírgula.
O orgulho pátrio sobreaqueceu tanto que acabou por esturricar. De um putativo império colonial passámos a uma irrelevância retangular. Nós somos as Berlengas da Europa. Os nossos raciocínios são feitos de dogmas, não de ideias. Estamos sempre habituados a tudo e prontos a nada. A nada e mais alguma coisa. Temos até orgulho na nossa irrelevância.
Os sons da nossa identidade são agora mais nervosos. E os nossos egrégios avós estão sentados na cadeira do crepúsculo. Já fomos uma nação ponto de interrogação. Agora, não sei se vos disse, somos uma nação vírgula. E nós na província a atravessar as giestas. E as causas dos outros como se fossem nossas. As mães na cozinha e os pais na taberna.
Tantos silêncios sobrepostos.
E os pobres remediados a fazerem dieta e a não conseguirem emagrecer. Os da província a pensarem em ir para a capital e os da capital a pensarem rumar caras à província.
A verdade é que a gente se arredonda. Que vergonha!
![]()
![]()
![]()
O filho pródigo já não se reconhece na casa a que voltou e torna a sair para ir por esse mundo fora pois não consegue suportar o tédio da sua velha residência e a estreiteza das ruas da sua terra e das mentalidades. Atrai a vastidão do mundo, o êxtase das viagens, o desconhecido. O cavalo morreu ao sétimo dia. No meio do frio. Pôs-se então a falar com o Criador. A culpá-lo pela falta de chamamento, pela coragem que não lhe deu, pela ânsia que sente em destruir as pontes que já atravessou, pela sensação de tomar banho sempre em água fria. Sente o desespero de nunca chegar a nenhum lado. Tenta recordar. O sol quente, os gritos das crianças, a cintilação da luz solar, a folhagem das árvores. Era o mais atrevido. O que saltava em último lugar antes de ser colhido pelo comboio. Ele a ler livros de príncipes e princesas e a pontapear gnomos. Tudo se alterava quando lia Dickens, Dostoiévski, Shakespeare. As palavras tinham o condão de o transformar. Os livros passaram a ser o seu mundo secreto. A estreiteza cultural é opressiva. Sempre o foi. Sempre o será. A luz da eletricidade pode-se desligar. A da literatura não. Também brincava aos doutores, aos cantores, aos escritores. Sempre a experimentar coisas novas que parecem velhas e a experimentar coisas velhas que parecem novas. Alguém o queria guiar pelo caminho virtuoso. E ele sempre às voltas. De tanto andar, tinha os pés sempre cansados como o cu dos cobóis em cima das selas dos seus cavalos. Sempre a criar as suas histórias em círculo. As histórias de sucesso raramente correm bem. E as de insucesso ainda correm pior. Um êxito de um mau livro pode ser um massacre. Lê-lo é como dançar à beira de um vulcão. Depois há o medo. O ímpeto incontrolável dos passos em volta. O melhor é lançar as suas cinzas ao mar. É sempre fácil desviarmo-nos do caminho que queremos seguir. O cansaço e a desilusão transformam-nos em estranhos. Por vezes queres voltar de novo à tua terra. Outra vez? Nunca mais aprendes. Limpa as lágrimas do rosto e corta uma rosa silvestre. Ninguém faz três vezes de filho pródigo. Nem o teu pai te leva a sério. Sempre a ir e a vir. Sempre a vir e a ir. Decide-te. Dizes que procuras um final feliz para a tua história. Mas isso o que é? O futuro? Estou-me nas tintas para o futuro. De velho não passo e a novo não chego. Vamos então dançar. O quê? Qualquer coisa serve. Para dançar qualquer coisa serve. Vá lá, sê um pouco mais abstrato. Na pintura resulta. Sinto frio. Uns dizem que querem arte. Eu desconfio. Pensam que a arte se bebe. A distância é o tempo que passa. Sempre a contar as horas, as palavras, as viagens, o dinheiro. O tédio. O tédio, ali aninhado, à nossa espera. Não há nada mais triste do que um palhaço triste. E o filho pródigo, que queria ser o filho prodígio, a andar em círculos. Na boa poesia há sempre algo de mais profundo, mais antigo. O capitão do navio sente-se a enlouquecer de tanto olhar o mar. As ondas. Os reflexos da luz do sol. O poeta sente-se perdido no meio das vagas. Em vez de navegar em círculos, devemos mudar de direção. No meio do mar não há malmequeres para desfolhar. Mal me quer… bem me quer… mal me quer…. Tanta beleza! Tanta fragilidade! Cada despedida é um começo. Não é filho pródigo? A efemeridade é o que torna as coisas belas. Olha pai, já não consigo continuar a fugir. Escrevo este poema em Moscovo, enquanto lá fora neva. Fui visitar a múmia do Deus da vacuidade ateia, Lenine. Agora já posso regressar a casa. Definitivamente.
![]()
![]()
![]()
A monotonia da província, à falta de melhor, acaba por ser terapêutica. É bom interromper o stresse a que estávamos habituados, mas a modinho, para não sofrermos um choque. Mudanças súbitas podem matar. É também agradável ver alguns semijovens elegantemente vestidos que encarnam perfeitamente o papel de presidentes de câmara ou de coisas afins, inaugurando coisas pretensamente esculpidas em metal na coroa dos plintos. Depois cai o pano e aparecem aquelas formas bizarras que espantam as forças vivas da cidade, que, mesmo assim, batem palmas de forma esfuziante, não vá o pobre escultor, centro das atenções durante alguns segundos, sentir-se menosprezado. Ele e a sua arte. Alguém discursa, sem saber bem o quê. E todos pensam, inclusive o palrante, que passariam bem sem ouvir boa parte de tudo aquilo. E dá um certo conforto verificar que em todas as cerimónias, por mais insignificantes ou importantes que sejam, encontramos sempre presidentes e comandantes dos bombeiros. E também o senhor abade, com olhos de goraz, e o comandante da tropa fandanga dos seguidores e discípulos de Baden Powell, com os seus ridículos calções, meias e chapéus. Sempre. Finalmente, acabamos todos por reconhecer que aquilo que puseram por cima do plinto, não sendo um grande exemplo de arte figurativa, é um excitante passo em frente para a nossa cidade. A arte é sempre bem-vinda. E digo isto sem qualquer tipo de ironia. Estes eventos fazem parte dos muitos dias mágicos que se passam na província. Por aqui, toda a gente tem uma ideia de quem são os outros, o que ajuda nos contactos, na conversa e na aversão surda e muda que partilham, enquanto se passeiam pelo meio dos salgadinhos, dos bolinhos, das miniaturas dos pastéis de Chaves e solicitam uma bebida ao barman. E não vale a pena evidenciar perplexidade, mesmo de forma ligeira e breve. Por aqui, até a hipocrisia é respeitada. Tudo o que é antigo parece sempre bom. E por aqui andamos de carros elétricos ou de bicicletas motorizadas a passear pelas ruínas dos castelos, pelas ruínas dos fortes, pelas ruínas dos moinhos, pelas ruínas dos castros, pelas ruínas das calçadas romanas, pelas ruínas das escolas primárias, pelas ruínas das igrejas, pelas ruínas das pontes, pelas ruínas dos mosteiros, pelas ruínas das fábricas, pelas ruínas das telheiras, pelas ruínas dos fornos do povo. E pelos outeiros cónicos cobertos de ervas e vigiados por árvores e arbustos amblíopes. E por tojos e urzes e giestas e carquejas. E por montes de escórias de minas e por estradas solitárias e por rios de águas vagarosas. E tudo isto feito em nome do progresso e da eficiência. O nosso futuro é coxo mas avança. Pode ser melancólico, mas avança. Dizem que agora tudo é discutível. Provavelmente sim, mas tudo o que é discutível não passa de uma treta, de um puro disparate. As dúvidas esclarecem tudo. O nosso subdesenvolvimento não é apenas culpa da província. Ainda está por descobrir quem foi o génio que teve a grande ideia de desmantelar as vias férreas do interior. A esse deviam levá-lo a respirar o ar puro do Larouco, em pleno inverno, e deixarem-no a viver numa caverna. Por aqui ainda andam os filhos dos povoadores. Os netos regressaram às urbes progressistas. Isto por cá até pode ser bom para escrever poesia campestre, mas não serve para mais nada. As vistas são nítidas, os pequenos vales sinuosos, os arbustos e as pequenas árvores robustas, as rochas cinzentas, os montes iluminados pela luz do sol e o verde denso, mas no território não vive quase ninguém. Agora está tudo na moda, até o passar fome. A fome era uma coisa de pobres. Agora os ricos passam fome porque querem e fazem-no com muito estilo e rigor. De forma científica e com a ajuda imprescindível da matemática. A obesidade é uma coisa de pobres. Inverteram-se os papéis. Deus já não pode valer aos pobres pois pesam demasiado. Até para o Serviço Nacional de Saúde. Somos vítimas de toda a espécie de ingratidão. Uns engordam como porcos e outros eliminam a gordura como se fosse uma coisa fascista, ou proletária ou marxista-leninista. Sim, a província também é o lugar onde é possível apresentar um livro de fotografias, numa cerimónia onde não há livros, pois estão nos calabouços camarários destinados a serem distribuídos aos distintos parranos que nos visitam, onde o senhor presidente da câmara fala com cara de entendido. E todos batem palmas. Até o artista. Dizem que a realidade supera a ficção. E é bem verdade. Até por cá. Sim, a província é isto mesmo. E muito mais.
37 seguidores
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.