Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

O Homem Sem Memória - 191

 

191 – “Por favor, mãe… Não, não, não me batas mais. Mãe. Não. Não fui eu quem roubou as maçãs à Dona Quinhas”, gritava o José momentos antes de abrir os olhos e ver que quem lhe dava bofetadas não era a Dona Rosa mas sim os esbirros de Alberto Punhal.

 

“Torcionários. Reacionários. Filhos da…” “Toma, toma, toma, toma mais esta e esta e ainda mais esta. Esta é por Lenine, esta por Marx, esta por Estaline, esta por Punhal e esta por mim e mais esta e esta e ainda mais esta. Tu cansas-me… E esta pela revolução que tu queres trair, besta reacionária…” “Reacionário és tu, filho da…” “Toma, toma, toma lá mais esta e esta, filho de uma cadela burguesa. Esta é por Marx, esta por Lenine, esta por Fidel, esta por Punhal, e mais esta por…” “Para, para, que o matas à lambada. Usa os processos, mas a modinho. Usa mas não abuses destes reciclados métodos ecologistas de tortura. As ordens são para obrigá-lo a confessar, não para o matar. Pelo menos para já. E as ordens são para ser cumpridas. Afinal vivemos num estado de direito socialista, a caminho do comunismo, ah, ah, ah... O preso tem os seus direitos… ah, ah, ah...” “Quais direitos, qual caralho! O direito deste cão reacionário é levar porrada. Porrada e mais porrada. Onde já se viu um transmontaneco de merda vir para aqui fazer pouco de todos nós. E do Partido. Enquanto eu puder, aqui na nossa terra ninguém brinca com a revolução, nem com as suas conquistas. Traz a vergasta que o vamos açoitar até confessar.” Pausa. “Reacionário, filho de uma cadela burguesa…” “Reacionário és tu, filho da…” “Toma, toma, toma, toma mais esta e ainda mais esta. Esta é por Fidel e esta por Che e esta por Lenine e esta por Marx e ainda esta outra por Estaline e ainda mais esta por Punhal… Traz lá a merda da vergasta, que já me começam a doer as mãos.” Pausa. “Reacionário, filho da…” “Toma, toma, toma lá mais esta e mais esta e mais esta e ainda mais esta. Esta por Lenine, esta por Marx e mais estas todas pelos revolucionários de cujos nomes agora não me lembro... Tu cansas-me… E não confessa, este filho de uma cadela reacionária…” Nova pausa, pois o prisioneiro voltou a desmaiar. “Foda-se, estou esgotado. Agora é a tua vez, meu trotskista de merda.” “ Não me chames isso nem a brincar.” “Olha, olha. Continua sem sentidos. Será que está morto?” “Morto não está porque ainda respira. Mas já não lhe falta tudo.” “Este filho de uma cadela reacionária não confessa nada.” “Pudera, tu, além de ainda não lhe teres feito nenhuma pergunta, nem sequer o deixas falar.” “Não vês que ele mal abre a boca insulta-me logo.” “É a sua tática.” “Talvez a sua tática o leve à morte.” “E achas que ele se importa?” “Ninguém gosta de morrer. Isso eu sei.” “Mas observando a maneira como ele se aguenta, penso que deves estar enganado. A forma como te provoca leva-me a pensar o contrário.” “Deixa-te de filosofias baratas e passa-me aí o vergalho.” “Com o vergalho não. Isso não. As ordens do camarada diretor são para obrigá-lo a confessar, não desancá-lo com porrada até à morte. Se lhe malhas com o vergalho, o pobre do homem não aguenta. O vergalho é para usar muito a modinho. E por especialistas. Exige muito treino e outra tanta sabedoria. Nas mãos de um brutamontes como tu é uma arma letal.” “Com as mãos já não consigo mais. É a tua vez.” “Não, não é. Então não sabes que eu é que estou escalado para fazer de torturador bom. Tu malhas e eu observo. Também quem mandou gabares-te ao chefe de que tens umas manápulas de gigante. Mais a mais, alguém tem de estar atento para ouvir a sua confissão. Afinal é isso que todos pretendemos. Olha, olha, está a acordar de novo. Vamos voltar ao trabalho.” “Eu não posso mais, já não sinto as mãos. Só continuo a tarefa se for com o vergalho.” “Não insistas, como chefe desta brigada de tortura proíbo-te de usares tal arma.” Pausa. Afinal o José não chegou a despertar, como o torturador bom tinha sugerido. Cansado de esperar, o torturador com manápulas de gigante, foi-se ao José e de novo o começou a esbofetear com toda a determinação revolucionária. E o José: “Não, mãe, não fui eu que roubei os rebuçados ao azeiteiro. Não me batas.” “Eu não sou a tua mãe. Sou um dos muitos camaradas que traíste. Tu traíste-nos a todos. Confessa. Toma, toma, toma, toma. Esta é por Lenine, esta é por Marx, esta é por Punhal, esta por Ho Che Ming…” “Não é Ho Che Ming é Ho Chi Minh…” “E a quem é que isso interessa? Porque não vens tu continuar a tarefa a ver se ele confessa.” “O que queres que ele confesse?” “Não te armes em intelectual. Queremos que confesse a sua traição. Afinal ele é um traidor. Traiu o Partido, os camaradas e a revolução. Não existe pior traição. Ele tem de confessar a sua traição.” “É aí que te enganas. Ele pensa que não traiu nada nem ninguém. Ele pensa que os traidores somos nós.” “Essa é a sua maior traição. Vai lá buscar o vergalho. Ele vai confessar, e de joelhos, como os católicos.” “Não insista no vergalho.” “Toma, toma, toma, toma lá mais esta, reacionário, traidor da classe operária, traidor da revolução, traidor do marxismo-leninismo…” “Reacionário és tu. Tu é que devias confessar a tua traição. Torcionário, reacionário, filho da…” “Toma, toma, toma. Esta é por Fidel, esta por Lenine, esta por Marx, esta é pelo seu amigo de quem agora não me lembra o nome, mas que também tinha barbas e era um comunista retinto, esta é por…” “Deixa lá, que o prisioneiro voltou a desmaiar. Vou chamar o médico e mandá-lo para a cela. Amanhã é outro dia.”

 

Depois da visita do médico da prisão, o José deu acordo de si e, virando-se para os torturadores, disse: “Até amanhã, camaradas.” “Além de traidor e reacionário é provocador. Isto só de vergalho é que lá vai.” “Estou que nem com isso”, concluiu o torturador bom já pronto a deixar de o ser. 


publicado por João Madureira às 07:45
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