Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014

Pérolas e diamantes (72): Orçamento, o buraco negro camarário

 

No dia 18 de dezembro, a maioria laranja da Assembleia Municipal de Chaves aprovou, de forma inerte e amorfa, provavelmente o pior e o mais enganador Plano de Atividades e Orçamento da Câmara de que há memória em tempos de democracia. A verba inscrita no falacioso documento ronda os cerca de 60 milhões de euros.

 

Para o senhor presidente trata-se de um “orçamento equilibrado e tem nas funções sociais o seu maior valor de investimento, sendo quase de 50 %”.

 

Cerca de 50%, dizemos nós, é a ficção, e a fixação, de tal montante por parte de quem elaborou o orçamento. Desde logo porque é irrealista, principalmente no que diz respeito à previsão da receita com a venda de património.

 

Ou seja, parte substancial da despesa orçamentada está prevista ser coberta com o recurso a receitas extraordinárias, obtidas nomeadamente com a venda de edifícios e terrenos, no montante de cerca de 7 milhões e meio de euros.

 

Mas sabem os caros leitores quanto é que a Câmara de Chaves realizou de receitas de capital com a venda de terrenos e edifícios no ano de 2012 (pois sobre o ano de 2013 a autarquia fechou-se em copas, o que indicia que o montante apurado pode ser ainda mais baixo)? Uns míseros 290 000 euritos.

 

Se fizermos bem as contas, pensamos que nem que seja descoberto petróleo nos terrenos camarários, ou destapado um tesouro valiosíssimo nas paredes de algum edifício pertencente à autarquia, o município conseguirá arrecadar verba tão avultada em venda de património.

 

Além disso, todos sabemos que nas atuais condições de mercado imobiliário, este “milagre das laranjas” é pura e simplesmente impossível.

 

A tudo isto, e pegando nas palavras do senhor presidente António Cabeleira, ainda se vem juntar a diminuição, desde 2010, de cerca de 2 milhões de euros de receita que o Estado deixou de transferir para a Câmara.

 

Como se isso não bastasse, as receitas do município também têm vindo a diminuir no que diz respeito às taxas urbanísticas, pois o volume de obras em construção decaiu substancialmente e o imposto de transações baixou para cerca de um quinto, devido ao facto de não se venderem casas e muito menos lojas.

 

Mas o grande buraco, o enormíssimo rombo deste orçamento, está nos cerca de 18 milhões de euros, cerca de um terço do total orçamentado, que se vão gastar para pagar a dívida às empresas Águas de Portugal e à Resinorte.

 

Sendo assim, uma pergunta se impõe: Como é que a dívida cresceu a um nível tão elevado? Pois porque durante alguns anos a Câmara de Chaves, vá-se lá saber por que carga de água, deixou de pagar os bens e os serviços a quem lhos fornecia. 

 

Todos nós, durante esse tempo, pagámos mensalmente a água que consumimos bem assim como a recolha do lixo. Sendo assim, por que razão a Câmara deixou de honrar os compromissos que celebrou em nome de todos os munícipes?

 

A dívida, que nos envergonha a todos, é da inteira responsabilidade de quem geria a autarquia. Mas a culpa, na nossa terra, morre sempre solteira. E no fim quem paga estes atos de má gestão somos todos nós. E a dobrar. Primeiro na conta do recibo, depois em impostos, através do orçamento camarário.

 

A dívida é de caloteiros arrogantes. E responsabiliza-nos a todos. E nós sem culpa nenhuma. Além dos 18 milhões de euros ainda vamos pagar juros sobre esse montante e ainda mais juros sobre esses juros. Juros em cima de juros até à falência total.

 

Mas ainda estamos para saber de que forma a Câmara conseguiu arranjar dinheiro para financiar a “Chaves Viva”, a “Voz da Juventude” e a “Chaves Social”, as verdadeiras “incubadoras” de “jobs for de boys” laranjas e afins. 

 

A Câmara de Chaves faz-nos lembrar aqueles nobres falidos que, não pagando o que devem, vivem com um pé na ostentação, como é o caso da Fundação Nadir Afonso, e outro na miséria, como é o caso do Centro Histórico, que está em ruínas.

 

Toda esta triste situação me fez lembrar uma passagem do livro de Afonso Cruz, “Para onde vão os guarda-chuvas” (que na nossa realidade bem poderia denominar-se: “Para onde vai o nosso dinheiro…”).


“Que resultados ridículos, pensou. E que deprimentes que são os números, sempre tão exatos, a dizerem-nos tudo com precisão, um mais um igual a dois e por aí fora, sem qualquer originalidade. Com licença, se os números fossem uma coisa boa, existiriam na natureza e andariam a pastar pelos campos, mas Alá sabe melhor, pois criou o mundo e a paisagem sem números nenhuns. Só existem na nossa cabeça e nas faturas e nos recibos, todos incisivos, muito abstratos, a olharem para nós de cima, parecem camelos, que Alá os corrija e lhes ensine a humildade. Se fossem alguma coisa de jeito, andariam a pastar como as cabras.”

 

Sim, de facto, o que dava mesmo jeito a António Cabeleira, e à sua “entourage”, é que os números, esses apóstatas, fossem pastar como as cabras.

 

Sobre a fantasia de cerca de 50% do orçamento ser para funções sociais, como afirma o senhor presidente, lembrei-me de outra passagem do mesmo livro de Afonso Cruz. Um pedinte pergunta à personagem principal, Fazal Elahi, o que é o altruísmo. Ele responde que é assim como dar dinheiro aos pobres indigentes. Ao que o pedinte, depois de olhar para as moedas com que foi presenteado, responde: “O altruísmo deve ser uma coisa muito pequena.”

 

Com esta Câmara, e com este Governo do PSD, vamos ficando cada vez mais como Badini, o poeta mudo do mesmo livro (que recomendo vivamente). Começamos a estar habituados a que a nossa vida tenha o som entre um insulto e uma porta a fechar-se.

 

Se calhar está na hora de pormos um pé entre a porta e a soleira. Os meus amigos dirão, e farão, o que mais lhes aprouver. Mas não digam que não foram avisados. 


publicado por João Madureira às 07:45
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 15 seguidores

.pesquisar

 

.Março 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9



31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

.  Epístola primeira

. A cultura do meu amigo

. Apetites freudianos

. Barroso com neve

. Vilarinho Seco

. Pinheiros com neve

. Poema Infinito (501): A c...

. Jardim Público - Chaves

. Tâmega

. 486 - Pérolas e Diamantes...

. Serenidade

. Serenidade

. Na conversa

. Poema Infinito (500): O D...

. Em Santiago de Compostela

. À espera

. 485 - Pérolas e Diamantes...

. Em Santiago de Compostela

. No Porto com Axel, Marina...

. Trabalhando

. Poema Infinito (499): As ...

. No pátio

. Atravessando a ponte

. 482 - Pérolas e Diamantes...

. Em Lisboa

. No Porto

. Póvoa de Varzim

. Poema Infinito (498): A v...

. Em Guimarâes

. No Louvre

. 484 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. Sorriso

. Na aldeia

. Poema Infinito (497): Aur...

. Procissão

. Tudo treme

. 483 - Pérolas e Diamantes...

. A mulher e o burro

. Ao sol

. Na aldeia

. Poema Infinito (496): Luz...

. No trabalho

. No pasto

. 481 - Pérolas e Diamantes...

. Nuvens

. Água

. Músico

. Poema Infinito (495): Est...

. Arcos

.arquivos

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar