Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2014

Pérolas e diamantes (73): burros de carga

 

Claudio Magris tem razão, do ponto de vista psicológico somos todos conservadores e ainda por cima cegos. Não conseguimos acreditar realmente que o mundo, tal como estamos habituados a entendê-lo, possa mudar. Mas ele muda. Apesar da nossa cegueira.

 

Agora está na moda o discurso sobre o discurso, como se o agricultor preparasse muito bem as alfaias agrícolas, calibrasse muito bem o arado, fizesse um discurso à mulher e aos filhos sobre a melhor forma de amanhar a terra, mas o pão e as batatas não chegassem à mesa. Bem vistas as coisas, o arado não é o objetivo. É o meio. E é disso que nos vamos esquecendo.

 

Por exemplo, aqui na nossa autarquia pensa-se sempre pequeno e a destempo. Andam sempre a errar o tiro e a correr atrás do prejuízo. Mas para o caçador matar um coelho, ou uma perdiz, tem de apontar para um ou dois metros à frente, porque, diz-nos a ciência da caça, só se apontarmos para diante é que podemos atingir os nossos objetivos.

 

Não é pois de estranhar que a capa da “New York Times” tenha dado destaque ao título “Em Portugal, o burro de carga vive de subsídios”, fazendo uma comparação entre o asno do planalto e o destino de Portugal e dos portugueses.

 

Raphael Minder, o autor do artigo, recordou que o burro foi essencial na agricultura durante muito tempo, mas corre agora o risco de extinção por causa do abandono das terras. Por isso Portugal, mais concretamente o seu interior, se encontra ameaçado “pelo declínio da população e com a sobrevivência dependente dos subsídios da União Europeia”. 

 

Tudo isto serve para introduzir mais uma lamentável notícia. A Delegação de Turismo de Chaves, à semelhança da Universidade, da PJ, do Tribunal, do Hospital, vai ser transferida para Vila Real.

 

Ou seja, através de mais uma machadada desferida nos serviços da nossa cidade, comprometendo a sustentabilidade dos nossos espaços termais e a divulgação turística da região, bem assim como pondo em risco efetivo os atuais postos de trabalho existentes na delegação flaviense, vamos ficando cada vez mais pobres e isolados, remetidos à desqualificação, ao abandono e ao definhamento.

 

Falta pouco para nos transformarmos numa vilazinha descaracterizada, rudimentar e triste.

 

Se pensarmos bem, o poder central, em conivência com alguns políticos locais subjugados pela inoperância e pelo servilismo partidário, em apenas meia dúzia de anos levou-nos tudo o que era necessário e estruturante para a nossa cidade e para o nosso concelho.

 

António Cabeleira, o senhor presidente eleito, veio para os jornais afirmar que, numa conversa tida com o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, tinha ficado “no ar” a promessa de que a situação de encerramento da nossa delegação não se concretizaria.

Afinal concretizou-se. E o senhor presidente disse lamentar. Não disse “combater”, ou “contestar”, disse “lamentar”. Não disse “lutar” ou “insurgir-se”, disse “lamentar”. Como se a Câmara de Chaves fosse um muro de lamentações e ele um rabino ortodoxo.

 

Os flavienses elegeram um autarca que em vez de lutar pelos nossos direitos, apenas se lamenta. Em vez de agir, lastima-se. Em vez de atuar, suspira.

 

Mas também, temos de reconhecer, o poder autárquico que resultou das últimas eleições é uma fantasia. É uma ilusão. É um equívoco.

 

Com o senhor presidente a fazer de mestre-escola, a atual vereação camarária faz-me lembrar as palavras de Galvão de Melo, proferidas ainda antes do 25 de abril e que lhe custaram uma punição disciplinar, relativas à frota de submersíveis: “A Marinha Portuguesa possui apenas três submarinos e todos eles inoperacionais. Tem um que só sobe, um que só desce e um terceiro que nem sobe nem desce.”

 

Está visto que os políticos são cada vez mais atores que representam interesses alheios. Só que a nós calharam-nos logo os mais deslavados e incaracterísticos.

 

Um dia, ainda criança, o meu filho mais novo disse-me com o seu ar brincalhão: Pai, quando for grande quero ser político. Eu perguntei-lhe: Para fazer o quê? Ele respondeu-me com toda a sinceridade: Para não fazer nada!

 

Como naquela altura ainda andava iludido com a política, tentei fazer-lhe ver que não era bem assim. Ele, depois de toda aquela explicação, olhou para mim, sorriu… e foi brincar.

 

Chegado aqui, apenas me resta confessar que, tal como o ex-comissário Ledru-Rollin, do livro de Gustave Flaubert, “A Educação Sentimental”, a política só me trouxe desilusões e tormentos. E a explicação é a mesma. Tal como o senhor ex-comissário “pregava a fraternidade aos conservadores e o respeito das leis aos socialistas”. O homem foi tão bem compreendido que “uns tinham-lhe dado tiros e os outros trazido uma corda para o enforcarem”.

 

A mim não chegaram a tanto. Mas estou em crer que vontade não lhes faltou. Ou lhes falta. Mas o que tem de ser tem muita força. E a prestidigitação e a mentira em política não costumam durar muito. 


publicado por João Madureira às 07:45
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 15 seguidores

.pesquisar

 

.Março 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9



31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

.  Epístola primeira

. A cultura do meu amigo

. Apetites freudianos

. Barroso com neve

. Vilarinho Seco

. Pinheiros com neve

. Poema Infinito (501): A c...

. Jardim Público - Chaves

. Tâmega

. 486 - Pérolas e Diamantes...

. Serenidade

. Serenidade

. Na conversa

. Poema Infinito (500): O D...

. Em Santiago de Compostela

. À espera

. 485 - Pérolas e Diamantes...

. Em Santiago de Compostela

. No Porto com Axel, Marina...

. Trabalhando

. Poema Infinito (499): As ...

. No pátio

. Atravessando a ponte

. 482 - Pérolas e Diamantes...

. Em Lisboa

. No Porto

. Póvoa de Varzim

. Poema Infinito (498): A v...

. Em Guimarâes

. No Louvre

. 484 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. Sorriso

. Na aldeia

. Poema Infinito (497): Aur...

. Procissão

. Tudo treme

. 483 - Pérolas e Diamantes...

. A mulher e o burro

. Ao sol

. Na aldeia

. Poema Infinito (496): Luz...

. No trabalho

. No pasto

. 481 - Pérolas e Diamantes...

. Nuvens

. Água

. Músico

. Poema Infinito (495): Est...

. Arcos

.arquivos

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar