Segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2014

Pérolas e diamantes (75): o tempo dos desalmados

 

O poeta inglês Coleridge disse que a fé poética é a suspensão da incredulidade. A encenadora Beatriz Batarda, nestes tempos de prosa dura, vai um pouco mais longe ao afirmar que lhe parece que as palavras já não chegam para definir, ou enquadrar, tudo o que estamos a viver.

 

Parece que a “Corte” (o governo, o presidente e o parlamento) existe para unicamente servir o poder e não os cidadãos. Beatriz Batarda exprimiu, e eu subscrevo por inteiro, “que a nossa sanidade está em risco”.

 

Entretanto os portugueses continuam indecisos entre se devem ser, ou não, ativos na delineação do seu caminho, e do caminho do país, insistindo numa posição demissionária e afastada, responsabilizando sempre os governantes e desconsiderando o poder individual que possuem. 

 

Claro que nem eu nem o estimado leitor sabemos bem qual o caminho que esta rapaziada do governo nos propõe ao sujeitarem-nos a tanto sofrimento, mas já sentimos bem toda esta ausência de orientação, todo este vazio de ideais, todo este silêncio da pobreza que está a vir ao de cima como uma enxurrada. 

 

A verdade na política, tal como na vida, pode até não existir, mas necessitamos de acreditar que existe e que é possível encontrá-la.

 

Eu sou daqueles que não subestima a capacidade dos outros nos entenderem da forma que somos: tendenciosos, irados, emotivos, entusiastas, racionais, irónicos e persistentes.

 

Mas a realidade não nos faz favores. Afinal quem é o culpado de todo o silêncio que se ouve nas nossas aldeias, interrompido por vezes pelo sino das igrejas a tocar, ou pelo ladrar de um cão, também ele já velho e rouco, ou pelo suspiro cansado dos idosos que se aquecem nas nesgas de sol das ruelas estreitas?

 

E ali estão eles tristes, resistindo e olhando para a beleza bravia das giestas, das urzes, dos tojos e das carquejas, cobertos ainda por algum orgulho de terem a mesma idade das árvores velhas que lhes deram os frutos e a lenha com que alimentaram e aqueceram os filhos.

 

As velhas tascas rurais são agora pequenos snacks com mesas de fórmica onde se bebe cerveja e se vê televisão.

 

As casas foram abandonadas e as ervas crescem entre as ruínas. As capelas estão fechadas e por ali apenas mora a solidão. São aldeias fantasmas onde muito de vez em quando, como um raio de sol no inverno, se vê uma criança a correr atravessando a rua. Um pouco mais à frente vislumbram-se mais alguns velhos que riem para fora e choram para dentro.

 

Quando falam nota-se-lhes uma enorme resignação nas palavras. Ali não se passa nada. Apenas, por vezes, as manhãs são claras. Ali tudo possui a indiferença e a lentidão da morte. Tudo ficou de repente demasiado velho, demasiado triste. As sombras tomaram conta das nossas aldeias, do nosso território, das nossas vidas.

 

Por ali a voz humana já não tem lugar, já não faz sentido. Ali murmura-se. Ali já não há namorados, nem corpos sadios que se possam amar e reproduzir.

 

Nas cidades, cujo paradigma é Lisboa, foram as pessoas menos responsáveis, mais egoístas e gananciosas, as que atingiram o poder e agora sobem na sua improvisada carreira.

 

E continuamos com os jeitinhos, rejeitando as soluções duradouras, não querendo ver que as questões atuais são tipicamente universais. Tanto na província, como na capital, os políticos continuam a insistir em procurar soluções de curto prazo.

 

E chegamos ao cúmulo de “socializar” as perdas do setor financeiro, enquanto se “privatizam” os lucros do Estado.

 

As nossas “elites” políticas são as mais medíocres de sempre, pois limitam-se a dar lições sem dar o exemplo.

 

Ensinaram-nos a dizer que nós não somos a Grécia. Aos espanhóis ensinaram-lhes a dizer: nós não somos como os portugueses. Os italianos aprenderam a dizer: nós não somos espanhóis. Por isso é que os “senhores financeiros” que mandam realmente no mundo sorriem imenso. Por vezes até às lágrimas, para pensarmos que estão comovidos com a nossa situação.

 

Essa é a razão pela qual o discurso político é uma mentira premeditada, uma evasão semântica, uma ambiguidade vulgar e anacrónica. O nosso governo exerce um poder informe, esquivando-se à realidade do sofrimento e da desgraça, falando por meias palavras, mas caraterizando-se por obedecer cegamente aos ditames da Alemanha e dos seus correligionários.

 

Uma coisa é certa e sabida, esta rapaziada que tem agora os destinos de Portugal nas suas mãos, desconhece quem somos, o que somos, abomina a nossa identidade e tem vergonha da nossa cultura.

 

Por isso é que desinveste na saúde e na educação, persegue a investigação e os investigadores portugueses e maltrata a cultura.

 

Porque sabe que a educação e a cultura são os espaços nobres onde se multiplicam os princípios e os direitos humanos e também o ideal democrático. 

 

Estes nossos governantes, quer autárquicos, quer nacionais, simplesmente não possuem ética, não têm convicções, nem responsabilidade. Limitam-se a querer o poder pelo poder. Estão incrustados nos órgãos de decisão e vivem num regime de sucessão eterna, quase dinástico, opressivo mesmo.

 

Estes políticos não têm honra nem dignidade. Não têm orgulho.  Não são homens de Estado. São, quando muito, como diz o fundador do PSD, Miguel Veiga, “políticos de aviário”.

 

De facto, “vivemos tempos desalmados”. 


publicado por João Madureira às 07:45
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.pesquisar

 

.Abril 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


22
23
24
25
26
27

28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. No Barroso

. ...

. No Barroso

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

. No Barroso

. 436 - Pérolas e Diamantes...

. Na Feira

. Na aldeia

. Olhares

. Poema Infinito (450): O d...

. Vaca atenciosa

. BB

. 435 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. ST

. Poema Infinito (449): Inc...

. ST

. Na aldeia

. 434 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Mulheres

. Na aldeia

. Poema Infinito (448): O g...

. Na aldeia

. Na conversa

. 433 - Pérolas e Diamantes...

. No elevador do CCB

. Em Paris

. Em Paris

. Poema Infinito (447): Des...

. Em Paris

. Em Paris

. 432 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

.arquivos

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar