Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

Pérolas e diamantes (76): Eles comem tudo…

 

Foi ao ler uma crónica do saudoso Manuel António Pina que a inquietação tomou conta de mim e não me tem largado da mão. O cronista escreveu que “hoje o estalinismo já não manda ninguém para a Sibéria; quando muito manda para o desemprego”, e agora sem subsídio.

 

Estes neoestalinistas (lembro Durão Barroso na Comissão Europeia, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Nuno Crato no Governo pátrio), afirmando-se atualmente social-democratas, ou democratas-cristãos, andam a vender Portugal a patacos.

 

De facto, o Governo odeia o Estado, sobretudo o que se designa por Estado Social. Os reformados são um empecilho, os desempregados são uns calaceiros que apenas pretendem receber subsídios, os cidadãos que auferem o Rendimento Social de Inserção são uns malandros, os que ficam doentes e recorrem aos hospitais ou aos centros de saúde são uns fingidores e as empresas públicas são única e exclusivamente um sorvedouro de dinheiro do Estado. E as que o não são toca a vendê-las rapidamente, e a preço de saldo, antes que os socialistas voltem ao governo e volte tudo à estaca zero.

 

Aos reformados, é bom que venha por aí alguma epidemia que os leve desta para melhor. Os desempregados devem é ir procurar emprego onde o há, lá fora. Os doentes que se curem enquanto trabalham ou morram no seu local de trabalho, como antigamente.

 

Perplexo com este estado de coisas, fui à procura de informação. Tudo o que nos está a acontecer tem de ter uma explicação plausível.

 

Bastou procurar um pouco e descobri um livro que fez alguma luz nestas imensas trevas do neoliberalismo desenfreado que desabou em cima de nós como uma trovoada devastadora, levando tudo à sua frente.

 

Esta candeia em forma de livro é do economista norte-americano Joseph Stiglitz, que ganhou o prémio Nobel pela sua teoria das assimetrias de informação, onde evidencia os efeitos nefastos na sociedade quando alguns indivíduos têm acesso a informação privilegiada e outros não.

 

Em “O Preço da Desigualdade”, Stiglitz afirma que a política formata o mercado, mas que atualmente a política é feita pela elite financeira, e pelos seus homens de mão, que apenas garante os seus interesses.

 

Depois de algumas décadas de neoliberalismo. Estamos agora à mercê de um grupo de cartéis que persuadiram os políticos de aviário da generosidade da desregulação, da inevitabilidade, e da vitalidade, das privatizações, da necessidade da destruição das leis de trabalho e da aposta numa globalização sem limites e sem regras, utilizando o monopólio do poder para apenas aumentar os seus lucros.

 

Daí o rendimento das classes médias ter vindo a diminuir, criando, ainda por cima, um sentimento de insegurança que desconheciam. Bagão Félix fez as contas e apurou que, enquanto o Governo diminui os impostos sobre os lucros, por exemplo, um casal em que cada elemento aufira entre 800 a 1000 euros, paga de taxa marginal de IRS com sobretaxa cerca de 50%. Ou seja, metade do rendimento vai-se em impostos.

 

Joseph Stiglitz refere que a distorção de utilização de fundos públicos é outra das questões pertinentes que interessa analisar. A título de exemplo, recorda que em 2008 foram injetados na companhia de seguros AIG cerca de 150 biliões de dólares de dinheiro público, isto é, dos contribuintes, que é um valor superior ao dinheiro gasto em auxílio aos pobres entre 1990 e 2006. Está claro que ele refere-se aos EUA, o seu país. Mas se pensarmos bem, por cá aconteceu o mesmo em relação ao BPN.

 

Por isso é que diz ser urgente injetar moralidade neste capitalismo financeiro que nos domina com base na globalização, pois os atuais níveis de desigualdade começam a ser intoleráveis. Stiglitz defende um regime de mercado livre, pois só ele pode beneficiar a sociedade, mas diz que necessita de ser regulado pelo Estado e ter a sua supervisão para se manter funcional.

 

No fundo, o livro é um forte contributo para o debate que urge fazer, especialmente em Portugal, onde a austeridade excessiva conduziu a uma destruição da economia interna e ao sufoco da classe média, que é a trave mestra que sustenta a democracia.

 

E para verem como ele tem razão relativamente aos efeitos perversos quando alguns indivíduos têm acesso a informação privilegiada, deixem que vos lembre o caso do advogado, e ex-ministro, José Luís Arnaut.

 

Lá diz Bagão Félix com a argúcia que se lhe reconhece: melhor do que ser ministro é ser ex-ministro. Mas se a isso ainda lhe juntarmos o trabalho com os bancos que trabalham com ministros da nossa cor política, fica a canção completa. Bem cantam os Galandum Galundaina: “Nós deiqui i bós daí, / Sodes tantos cumo nós; / Mataremos um carneiro, / Los cornos son para bós.”

 

Este destacado militante do PSD trabalhou já para o Estado, para as empresas vendidas pelo Estado e para as empresas compradoras das empresas do Estado. Arnaut foi decisivo nas privatizações da EDP, REN, ANA e mais recentemente nos CTT, empresa da qual a Goldman Sachs comprou 5%, tornando-se a maior acionista. Arnaut foi assessor da Goldman Sachs, que, por seu lado, foi responsável pela venda de swaps tóxicos a empresas públicas.

 

Ainda todos nos lembramos do que o governo, o PSD e o CDS disseram das empresas de raiting, das corretoras internacionais e dos bancos com capital especulativo.

 

Apesar disso, o Governo do PSD/CDS contratou a Goldman Sachs para sua assessora na emissão de dívida pública.

 

E, ó coincidência das coincidências, a Goldman Sachs contratou agora Arnaut para um lugar de topo.

 

Por isso é que o Serviço Nacional de Saúde não tem dinheiro para atender os doentes em risco de vida e os despacha de Chaves para Lisboa de ambulância, esperando que a sorte do doente seja o que determina a fronteira entre a vida e a morte. 

 

Portugal está a saque. Os vampiros voltam a atacar pela calada, agora instalados nos gabinetes dos partidos do Governo, nas sedes dos bancos e das seguradoras e das empresas de assessoria onde proliferam os Relvas, os Arnautes e outros que tais. 


publicado por João Madureira às 07:45
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