Segunda-feira, 17 de Março de 2014

Pérolas e diamantes (80): pormenores

 

Flaubert dizia que tudo está no pormenor. Por isso lhe dava muita importância. Muitas vezes os escritores captam coisas que as outras pessoas não valorizam, jogando com vários aspetos da realidade que passam despercebidos à generalidade dos indivíduos.

 

Eu só me apercebi desse fator quando ouvi alguém do Governo, na tentativa saloia de isolar os números do nosso invisível crescimento económico, afirmar que em Portugal existem duas realidades contraditórias: o país, que melhora, e as pessoas, que empobrecem a olhos vistos.

 

Ou seja, nesta perspetiva milagrosa, apesar dos portugueses estarem a viver pior, o país está melhor.

 

Este é o “pormenor milagroso”.

 

Na nossa cidade o “pormenor milagroso” também sobreveio. Apesar de uma dívida autárquica imensa, apesar de se ter enterrado e desbaratado dinheiro a rodos, a cidade parece, ao que dizem os nossos autarcas, que está melhor, mas as pessoas estão a viver pior, algumas muito pior mesmo. 

 

Parece que, na perspetiva de quem nos governa, estamos naquela experiência mística de atingir o nirvana. E lá continuamos a viver, experimentando a dor física, os prazeres físicos, a saudade, a alegria, a tristeza, mas de uma maneira diferente porque, agora sim, sabemos o que é atingir esse nível supremo de bem-estar espiritual.

 

E assim esperamos durar, tristemente privilegiados pelo tempo que nos toca viver. Tudo isto é muito shakespeariano.

 

É como se fossemos aquele homem que está a observar uma festa de forma a pensar noutra coisa no meio da festa. Talvez numa festa de comédia ou, provavelmente, de tragédia. Esperamos todos que a alusão seja mais eficaz do que a expressão.

 

Sim, agora parece que todos nós temos direito à opressão e ao sufoco. À mentira.

 

Que estranho país o nosso, que se dedica presentemente à imigração, que é outra forma de dizer, ao desaparecimento. É como se o fracasso fosse o nosso destino. O fracasso voluntário.

 

Como se não bastasse a desilusão política, outra se lhe veio juntar. Numa entrevista de Jorge Luis Borges a Osvaldo Ferrari, deparo-me com a seguinte confissão do escritor argentino: “Acho que nunca li um livro na íntegra.”

 

Como se não bastassem os políticos, eis que os escritores se empenham em nos desiludir.

 

Conta-se que a empregada da Natália Correia, com quem a cadela da escritora embirrava, um dia foi mordida com tal fúria que teve de ser levada às urgências do São José.

 

Aí os médicos tentaram averiguar se o animal estava vacinado. Contactada por telefone, a escritora terá exclamado: “Sei lá. Mas que raio de interesse tem isso.” Do outro lado alguém terá explicado: “É que a rapariga pode correr riscos se não soubermos.” Então a escritora disse: “E a cadelinha?” Silêncio. “A cadelinha é que me preocupa, já me inspirou um poema e uma crónica, por sinal muito interessante, agora a criada não, nunca me inspirou nada, nem um verso.”

 

Fazendo uma analogia, podemos afirmar que o Governo se assemelha em tudo a Natália Correia, para quem nós somos a criada e o país é a cadela.

 

Convém no entanto salientar que ao nosso primeiro-ministro nem o país lhe inspira sequer um verso.

 

Oscar Wilde dizia que é a natureza quem imita a arte e não o contrário. Conta-se que o escritor estava uma vez em casa de uma senhora que o levou à varanda para que ele visse o pôr-do-sol. Ele assim fez. Quando voltou a entrar comentou: “Nada de especial. É apenas um Turner da pior época.”

 

Ou seja, o que o escritor queria dizer é que a arte pode ensinar-nos a ver de forma diferente.

 

Borges defendia que os políticos são, em geral, leitores atrasados. Um escritor francês, de quem agora não me lembra o nome, disse que as ideias nascem suaves e envelhecem ferozes. E é bem verdade.

 

Basta lembrarmo-nos do socialismo e do fascismo. Começa-se pela ideia de que o Estado deve dirigir tudo, que é melhor que haja uma instituição que dirija as coisas em vez de tudo ficar ao abandono e ao caos ou, quando não, às circunstâncias individuais. Daí chegou-se ao comunismo e ao nazismo.

 

Toda a ideia começa por ser uma bonita oportunidade, mas depois, quando envelhece, é sempre usada para a tirania e para a opressão.

 

Ou seja, as ideias a princípio são inocentes. O problema é que depois ficam terríveis. Ao liberalismo também lhe pode acontecer o mesmo. Então se for defendido e implementado por gente do calibre político e intelectual de Miguel Relvas, só podemos esperar o pior.

 

Vivemos divididos entre o mito e o conto de fadas. O mito do desenvolvimento do país por parte dos partidos do poder e o conto de fadas do futuro promissor prometido pela oposição.

 

Todos ouvimos o conto de fadas como um divertimento. Já o mito é uma palavra respeitável, só que não tem correspondência com a vida das pessoas. Com a realidade. 


publicado por João Madureira às 07:45
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