Segunda-feira, 31 de Março de 2014

Pérolas e diamantes (82): em defesa do Manifesto dos 70

 

Os acontecimentos e os comentários dos últimos dias sobre o Manifesto dos 70 – que é uma reflexão elaborada por um grupo de cidadãos a propósito de questões de importância fundamental para a vida dos portugueses, tanto no curto como no longo prazo – são muito esclarecedoras sobre o estado da nossa sociedade e dos seus atuais líderes.

 

Muito se fala da sociedade civil, mas todos sabemos que mesmo sendo um dos conceitos mais propalados por quem gosta de se pronunciar em nome dos outros, é, ao mesmo tempo, uma das conceções mais obscuras e indeterminadas da nova teoria política.

 

No entanto ela existe, a tal sociedade civil. Ou melhor, até existem duas, para mal dos nossos pecados. Uma que serve de apoio, e de argumento, ao Governo e uma outra que quando se manifesta é de imediato menorizada ou diabolizada.

 

A reação ao Manifesto dos 70 é disso exemplo paradigmático. O Governo e os partidos que o apoiam não se cansam de apelar à iniciativa da dita sociedade civil para se unir e intervir no sentido de apontar um caminho para sairmos da crise, passando por cima das diferenças ideológicas e partidárias.

 

70 personalidades, entre elas Adriano Moreira, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Carvalho da Silva, Vítor Martins, Sevinate Pinto, António Saraiva, Vieira Lopes, João Cravinho, Teresa Beleza e Francisco Louçã, resolveram subscrever um documento onde se defende a restruturação da dívida portuguesa.

 

Bastou isso para que os defensores do Governo, e da austeridade a todo o custo, viessem para os jornais, as rádios e as televisões afirmar que o Manifesto é, no mínimo, inoportuno.

 

Ou seja, a primeira resposta dos nossos governantes, e dos seus correligionários, à tomada de posição da denominada sociedade civil foi negar a evidência, defendendo que a proposta é inoportuna por ainda ser cedo demais para abordar tão sensível questão.

 

Fácil é deduzir que se o documento saísse mais lá para diante argumentariam que seria despropositado por ser tarde demais para falar disso. Isto é, na sua perspetiva, o debate sobre a reestruturação da dívida é ainda extemporâneo e mais tarde será inútil.

 

Mas como viram que os argumentos não pegaram na opinião pública, resolveram recorrer às armas do costume, o insulto, a desqualificação e, o que é ainda mais grave, a deturpação do que lá vem escrito.

 

O apelo à participação da sociedade civil, por parte dos nossos dirigentes, no sentido de se construírem soluções de interesse coletivo, afinal não passa de uma atitude hipócrita que não consegue esconder a sua falta de cultura de cidadania e revelar a ausência do verdadeiro espírito democrático.

 

Por isso é que tentaram diabolizar este contributo para modificar, ou melhorar, as decisões dos responsáveis políticos, tentando dissuadir, de uma vez por todas, o genuíno debate de ideias, empobrecendo de forma irredutível a nossa democracia, que eles não honram nem apoiam.

 

Os neoliberais do costume, devotos confessos da senhora Merkel e dos mercados especuladores e agiotas, vendo que a sua tese da inevitabilidade do empobrecimento foi posta em causa de maneira séria e sustentada em fortes argumentos, desnortearam-se, desunharam-se e atiraram-se aos subscritores do Manifesto apelidando-os de defensores da dívida eterna.

 

Mas a verdade é que em nenhum ponto do documento se fala que não podemos pagar o que devemos e muito menos se sugere um perdão da dívida.  

 

Para que conste, o que lá vem escrito é que temos de saldar a dívida até ao último cêntimo, que temos de cumprir os compromissos assumidos com os nossos credores, só que em melhores condições do que aquelas que atualmente existem.

 

Isto é, com juros mais favoráveis e com maturidades mais longas, para que seja possível compatibilizar o crescimento económico e a criação de emprego com o cumprimento das nossas obrigações.

 

Até porque todos já percebemos uma coisa: estes níveis de austeridade estrangulam a economia e não a deixam crescer. E sem crescimento económico não há emprego para as pessoas. E sem emprego não há dinheiro para as famílias. E sem pessoas que produzam não existe dinheiro para honrar os nossos compromissos.

 

Está claro que estas verdades incomodaram tanto Passos Coelho como Cavaco Silva. Até mais o primeiro-ministro que o estático e seráfico presidente da República.

 

Exasperado, o chefe do Governo, segundo o insuspeito Expresso, “forçou” mesmo a demissão de dois assessores de Cavaco que se atreveram a assinar o Manifesto. Isto em apenas 24 horas.

 

Tanta coragem não revelou o senhor presidente da República com outros consultores que participaram em iniciativas políticas. E por causas bem mais gravosas. Basta lembrar que tem na sua Casa Civil gente que inventou falsas notícias contra o anterior governo, que participou em iniciativas do PSD e até em lutas internas do mesmo partido.

 

Estou em crer que perante a posição pública do primeiro-ministro, em muitas das cabeças dos subscritores do Manifesto dos 70 surgiram estas palavras de Diderot: “Se pouco me estais grato pelo que vos digo, muito me agradecei o que vos não digo.”

 

PS - Foram 70 as personalidades de várias franjas políticas e sociais portuguesas que subscreveram o manifesto em defesa da reestruturação da dívida pública do país. E logo depois, 70 economistas estrangeiros, muitos com cargos de relevo a nível internacional, expressaram o seu apoio ao documento que tanta celeuma gerou entre os servos do costume.

 

As suas palavras foram simples e claras: “Apoiamos os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida, no sentido de se obterem menores taxas de juro e prazos mais amplos”.


publicado por João Madureira às 07:45
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