Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (182): a porta dos abismos

 

Há imenso espaço para meditarmos. O azul é enorme. O céu é amplo. Os olhos acendem-se vendo correr a água entre as margens da esperança. Os deuses falsos já morreram. Os mares tornaram-se indefinidos. A saudade é uma incerteza nativa. Este é o tempo da fé na realidade. Do outro lado está o mar sem fim feito de nevoeiro confuso. Os ventos dizem-nos que ignoremos a pátria. A pátria está muda. Nós buscamos a distância do desejo. A pátria entristece-nos. A pátria tem aquele brilho sem luz que nos espanta. A pátria não arde. A pátria é um fogo-fátuo que dói porque nela tudo é incerto e derradeiro. Nela só a noite é enorme. Não há terra nem os céus, mas sim a noite. E as sombras. E o passado. Nela até os crentes perdem a fé. As almas ficam acesas iluminando as espadas. Resta-nos o nome. E a fé perdida. A fé de não crer em nada. A fé que nos inunda a alma de escuro. A fé no gládio e na cruz. A fé nos heróis que são vento e que são expiação e que são ânsia. O tempo fica agora na sua nova forma clara. O espaço é outro. A memória amanhece dentro de nós e transforma-se num lago. Deus despreza a brisa da tarde.  Deus transforma-se no espectro real da distância. Todos estamos à espera da salvação e da fé e da esperança. A terra fica aflita. Só as palavras são redentoras. Os sonhos vibram e ardem. As horas esvaem-se. O prazer é agora um estandarte feito de som. Os versos desprezam a própria ideia de infinito. A beleza não existe. Somos seres transitórios. O mundo fica na sua forma metafísica. E cruza os braços. Olhar é agora uma ideia abstrata. É uma floresta sem céu. O mundo fica sem gestos e sem cor. Fica como o mar onde navegam naus negras e silenciosas. As horas ficam lentas e morrem. Corre um frio de carne pelo nosso corpo inerte. Desejamos a imperfeição, a antiguidade, o abandono, o fluido das auréolas, os silêncios futuros. Navegamos entre os sorrisos das brisas e o silêncio do paraíso. Abrem-se as portas por onde o vento entra. Ele traz os erros e o fumo e os ócios e o perfume dos salões onde se discute a guerra e o seu assombro. Aprendemos a angústia de sonhar. Todos os manuscritos se transformam em paisagens. A nossa voz fica triste, tão triste como a voz que embala os náufragos ou como a própria ideia de naufrágio. De repente paro e penso. Fito o sabor imenso da infância. Ignoro o seu desprezo. Abro as mãos às suas horas felizes. E sorrio. Por vezes amo os meus sonhos como se fossem escadas de silêncio que me transportam até à curva do horizonte. Depois amo as paisagens desenhadas pelo amanhecer e desespero com o sorriso dos anjos exilados dentro do seu próprio limbo. E fico triste com o sorriso imperfeito da chuva. Agora somos duas figuras impressas num vitral de gemidos. Tão pouca é a vida para tão grande sonho. As escadas são agora totalitárias e sem degraus, são intervalos, são paisagens com flores transparentes que arrastam o sol, as sombras, a água, as árvores antigas, os sonhos, as paisagens verticais repletas de vultos, a transparência das águas, os caminhos que ardem, as igrejas iluminadas de dor e pranto, o esplendor dos altares dos mártires, todos os abismos feitos pelo tempo, o espaço que nos escorrega por entre os dedos, os versos escritos com a luz da manhã, as janelas secretas da noite e as pirâmides do desalento. De repente todo o espaço fica estático. Nas janelas aparecem as mãos brancas da despedida. Eu fecho os olhos e entro em casa pela porta dos abismos. 


publicado por João Madureira às 07:45
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