Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (183): o gosto dos anjos

 

Quantas vezes fiquei parado a olhar-te junto ao lago, a admirar os teus movimentos lentos, a invocar a memória e a recordar-me de uma só vez como te conheci. Eras um anjo de cabelos longos e atados que espalhava o fogo do seu olhar e se sentava à mesa a falar de papoilas. Sim, os anjos sentam-se à mesa e repartem o pão e deitam-se na cama e escondem as armas de fogo nos armários e libertam os pássaros das gaiolas e têm insónias divinas e orgasmos como orações musicais. E amam aquilo que somos. E sabem estender-se no chão e esperar que os pisem com amor. E gostam que lhes acariciem a pele e de ter medo de terem medo e de revelar o caminho aos que se perdem e de estender uma escada aos que necessitam de subir e de acender luzes na escuridão e de revelar estrelas e de iluminar as palavras e de amaciar os espinhos das rosas e de perguntar o nome aos esquecidos e de apaziguar as certezas insofismáveis e de transformar a alegria das pequenas realidades numa coisa imensa e de transformar as horas em oferendas e de colocar madrepérolas no teu nome e de perder a cabeça por desfolhar malmequeres e de voar como abelhas e de nadar em grandes espaços. E os anjos gostam também de nascer todas as manhãs e de percorrer os desertos e de contemplar as luas a abrir-se e a colocar planetas aos teus pés e de colher amoras e de se esconder no nosso passado infantil e de dormir abraçados e de tocar os pequenos pontos azuis do nosso cérebro e de codificar o nome de deus e de por nome às crias das gatas e das cadelas e das vacas e das éguas e de serem mais assim e mais assado, conforme os apetites de cada um, e de fazer tiquetaque como os enormes relógios de sala e de desvendar aos escritores todos os enredos das vidas que não se cansam de inventar e de guardar segredo quando lhes pedem e de escrever romances onde as princesas dormem em berços de vento e de parar o sangramento quando as mães furam as orelhas às suas filhas e de gravar orações nos brinquedos e de tomar banho numa bacia junto à lareira e de encantar lagartos e de fazer milagres ao contrário e de guardar seixos nos bolsos largos dos seus uniformes e de desfazer promessas tolas e de decorar poemas e de juntar pedrinhas e pedrinhas e mais pedrinhas num canteiro de maçãs e de repetir as vogais três vezes e de soletrar todas as palavas esdrúxulas da bíblia. E os anjos gostam ainda de por vezes não sentir nada e outras vezes de sentir tudo e de tornar a não sentir nada e de tornar a sentir tudo e gostam de ser leves como penas de pintassilgo e tão pesados como chumbo e gostam de perder a consciência quando amam e quando odeiam, apesar de estarem proibidos de odiar, e gostam de escrever cartas de amor ainda mais ridículas do que as que escrevia fernando pessoa e de deixar pousar os pirilampos nos olhos da luzia e de beijar as feridas que não se veem mas se sentem e de responderem às perguntas pertinentes do vasco e de nunca se chatearem com a teimosa teimosia do axel. E os anjos gostam igualmente de falar com os mudos e de acompanhar a visão mental dos cegos e de dizerem as palavras mais cruas com uma leve consonância musical e de transformar os gritos dos desesperados em música erudita e de deixar que chova nos jardins da babilónia e de obrigar os homens da torre de babel a, pelo menos, lavarem a loiça do almoço e de assinarem as cartas que enviam por correio com um beijo escrito e, por fim, gostam infinitamente de escrever em bicos de pés deixando que os humanos lhes acariciem as asas. 


publicado por João Madureira às 07:45
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