Quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

Poema Infinito (184): o desassossego da criação

 

Sinto agora o frio sossego da neve pisada por mim e o silêncio que cai como as folhas. Sou um homem exposto. Sou como um rio que se afoga nas suas próprias águas. A tua boca é uma rosa molhada pela chuva que o vento desprezou. O esquecimento e o abandono doem-nos. O sono corrompe os beijos. Fico de olhos parados observando um pianista entrar num velho bar logo pela manhã. E depois sair para a rua e passear nos jardins e falar com os pássaros e olhar as flores que sorriem dentro da sua perfeição. Sei que o céu está lá em cima porque sinto o seu azul perfeito. As pessoas riem-se dos namorados e os namorados riem-se das suas ilusões e das desilusões das pessoas que já gastaram as suas ilusões a desiludirem-se. As árvores descansam nas horas apagadas da tarde. É bom sentir ainda o segredo das coisas vivas e ignorar os caminhos concluídos. Os homens esquecem-se da vida e giram os braços e reparam em tudo à sua volta. Foi neste lugar que nasceu a inocência. É bom lembrar viagens que a gente gostaria de fazer e os amigos que se aproximam das nossas conversas. Os teus olhos estão cheios de riquezas íntimas e de emoções imaginadas. É bom pensarmos na alegria dos livros e nas horas passadas a lê-los. É bom pensar nos poetas com cara de anjos e nos anjos com cara de poetas e na sua admiração feliz e na sua ternura no momento da criação. É bom vê-los suspirar de alívio ao lembrarem-se que os olhos dos amantes são perfeitos e que por isso falam verdade. É bom esquecermo-nos do destino e da vontade irreprimível de escrever para contar tudo aquilo que a gente ainda não assinalou. Já não sei se é bom ter a saudade escondida no coração. O tempo agora está diferente e isso provoca-nos uma estranha impressão de atordoamento, como quando a dor consegue fugir das feridas. Quando fechamos os olhos conseguimos ver o tempo a ter tempo de abrir um buraco para a infância e outro para muito mais além. O vento liberta-se e fica com vontade de chorar. A Eva voltou a sentar-se no barro. E o Adão acompanhou-a. Ambos têm os olhos vazios. Ele não reparou nela, só lhe disse que era infeliz como todos os outros homens. Depois calou-se. E ali ficaram a escutar a noite e o campo e as árvores velhas e a música do silêncio. Desde o pecado original que carregam, como mendigos, as suas bocas mortais e os seus sexos pecaminosos. E o Diabo provoca-lhes sede e dá-lhes insónias em forma de comprimidos anticoncecionais. E carrega-os de pesadelos inférteis. Os seus cabelos negros ficam brilhantes. Falam pouco. Recordam-se do frio de Deus e das cicatrizes nos corpos macerados dos mártires. E de beberem água e de se banharem vestidos com as suas peles de serpente. E lembram-se também dos crepúsculos que ficam sempre cinzentos e dos seus desejos serem enfiados dentro da Arca da Aliança e de não precisarem da verdade para nada e de prometerem, por causa disso, honrar o nome do Senhor. E recordam-se de sentirem o vento trazer-lhes as palavras constrangidas da salvação. Adão e Eva são agora prisioneiros da sua solidão de amor e de pecado. Andam sempre a fugir dela e a ela regressar. E confessam ao seu Senhor que a sua vida é amarga e que continuam a sonhar com o paraíso de onde foram expulsos. Eles dizem amar o ideal que não conseguiram cumprir e por isso pedem a Deus que os vista de nuvens, ou que os transforme em peixes ou que lhes dê asas de avião. Lamentam-se de serem apenas sombras da tarde e de pensarem coisas leves e estúpidas. Deus, como sempre, apenas lhes responde, bastante constrangido, com palavras misteriosas. 


publicado por João Madureira às 07:45
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