Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Poema Infinito (186): o rosto das insónias

 

Eu sou límpido dentro da tua boca e do teu corpo e quando te devoro o olhar e quando te abraço e quando entro unanimemente pela tua carne dentro e expludo como um clarão dentro da tempestade. Nesse momento sou um cometa chamado animal. A minha cabeça fica no seu ritmo de pavor e oscila dentro da sua lenta matéria ordenada. As mãos das mães alumiam todo o espaço e depois tocam a cabeça dos seus filhos com o seu dedo batismal. E choram. E amam. Por isso mantêm todas as coisas que existem no mundo a levitar. Os seus olhos são estrelas duplas que dão força à luz que cose os astros ao céu. Então sinto o tremor do mundo e a argila densa de que sou feito. E os músculos que são sangue e água. E os olhos que são incêndios. E os rostos que são auréolas miraculadas. E vejo portas que dão para outras portas e estas ainda para outras portas. E vejo mãos que se deslocam à velocidade da escrita e que brilham quando tocam o chão ou o teu rosto ou o rosto das mães ou o rosto da terra. Por isso a terra treme e transforma as sementes em árvores e acaricia as sementes e os choques sísmicos. E o ar transforma-se num remoinho de esperança e absorve a água. Então defendo-me da muda invasão das insónias e respiro como os escafandristas e toco os relâmpagos. É por aí que penetra toda a agudeza do mundo, pelo buraco assombroso das imagens, onde o escurecimento começa a brilhar e se transforma em diamante. Todo o sonho é uma alucinação que se deita connosco sem nós sabermos e nos enche de lembranças e transforma os objetos em chamas. Tenho o coração cheio de abismos. Por isso é que estremeço sem me aperceber. Por isso é que escrevo poemas. Por isso é que a gramática arranca toda a música aos meus poemas. Tão aguda é a inocência do mundo. Tão triste é a iluminação densa das palavras. O medo. Sempre o medo. Sempre o medo da melancolia. Sempre o medo de Deus. Sempre os nomes que regressam. Sempre a limpidez. Sempre a ameaça da noite. Sempre a memória das fêmeas que ardem dentro do seu prazer gemido. Sempre o brilho das feridas, sempre as cicatrizes das janelas envelhecidas, sempre as úlceras das máquinas e os braços que se crispam e a voragem do mar e os soluços e a beleza operatória de um coito e o brilho vivo do esperma. Tenho medo dos raios na noite e dos espelhos das casas de banho e da desordem dos átomos e do gotejar múltiplo dos suspiros. Paira sobre o mundo a ameaça da desordem. Abro a porta por onde entram os astros transbordantes. Movo-me olhando as estrelas poderosas. Sou como uma raiz onde se movimenta a loucura, onde a noite tem o seu âmago, no sítio onde as frases falam dentro do fogo da paixão. As estrelas calcinaram tudo. Por isso os pesadelos são tão exatos. Por isso a carne é tão rude. Por isso o timbre da minha voz é tão árduo. Respiro dentro de uma bolha. O pensamento torna-se transparente. A casa treme. Deus arranca as paisagens do chão e escurece-as. Depois aponta o dedo na direção das sombras. A luz acomoda-se nas tuas mãos, como se fosses uma anja. A vida irrompe dentro do seu implacável prodígio. E morre. Do chão levantam-se as lavaredas que consomem a cor das flores. Ensinaram-me a ter medo do poder da nudez. E eu aprendi essa ameaça. E com ela durmo. Nessas noites encontro o pavor que se transforma em música e que são vozes longínquas. Lembro-me então de quando a minha mãe me penteava com feixes de bruma. É assim que atravesso sempre o inverno. É assim que abato as insónias. 


publicado por João Madureira às 07:45
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