Quinta-feira, 6 de Março de 2014

Poema Infinito (188): o medo e a queda

 

Uma pomba assustada sai de dentro de ti. A tua boca fica translúcida como uma rosa húmida. A cidade transforma-se numa narrativa onde a luz flui como um caudal de chamas. Bandos de crianças flutuam na memória das avós. E as avós descascam ervilhas e apertam, sem querer, dentro dos seus olhos as imagens dos pássaros que voam por cima do rio. E olham os gatos que se aquecem ao sol e alcunham os dias que crescem e correm para fora do tempo. Os anos sobem-lhes aos ombros. Por isso erguem as mãos e brincam com os sorrisos como se comessem maçãs. E dizem que já não podem ser nada. A igreja respira no fundo da rua. Veem-se orações a subirem ao céu como se fossem fumo. Desejo agora uma cor só para mim. É com ela que lembro a minha avó amassando o pão. O forno aquece a imagem da minha infância. A tristeza obriga-me a comer as lágrimas. A minha aldeia voa como se fosse uma dádiva generosa. Mas é apenas uma ruína bizantina. Nas suas casas sombrias pousam agora os mochos de asas grandes e olhos frios. Os caracóis sobem pelas paredes e secam. As pombas já não põem ovos. As montanhas que a rodeiam sorveram todo o ar. Do lado de fora um mago toca a flauta. Alguém entra no labirinto e canta uma cantiga de água. O som sufocante é um sinal de desespero. Deus e o Diabo voltam a conciliar-se. Cada um fica com a sua metade. Os homens leem livros ocos e não param de falar. Voltamos à cidade. Na cidade cabem todos os números e nela morrem todos os sonhos. Por isso é tão visitada. Ligo-me ao mundo através de um delicado fio. Daí o meu desassossego. Já ninguém se encontra nos jardins. Sinto o medo das tempestades a invadir-me. Há sempre algo que devemos esquecer. Para quê querer tudo se tanto faz. O melhor é guardar a fala de Ossip Mandelstam para sempre e ficar com a sua estrela espelhada. E lembrar os pais e os amigos e os irmãos e encontrar quem se perde nas florestas esquecidas. As primaveras estão cada vez mais frias e a sua beleza dispersa-se pelo espaço. Por isso nos dói a alma. Vivemos sem sentir o mal e apenas ouvimos o que se diz de nós. Por isso as casas ficam tão estáticas e vazias escoando as memórias pelos canos. Os telefones ficam espantados. As crianças brincam com o ar e riscam o chão com formas verdes. Dos nossos lábios nascem murmúrios assustados. Ardo como uma vela na noite. Os rios correm verticalmente na direção das montanhas. E vigiam-nos os sonhos. Os cordeiros de Deus sorriem irritados. Desalmado é quem contempla a sua própria sombra. A cidade por vezes fica aberta e é visível a sua alucinação. Mergulho no tempo e emudeço. Perco-me no céu de Dante. Sonho com carícias florentinas. Sirvo-me da força e do silêncio. É possível que esteja perto do ponto de loucura. Acordo dentro de catedrais de cristal onde a luz é tão escrupulosa que dói. As linhas são puras e as palavras silenciosas. As pessoas têm os rostos abertos e proclamam-se devedoras de toda a culpa. Silvam as flautas, as mulheres dançam ostensivamente as suas ancas, assam-se cabritos, come-se a fruta. Os homens proclamam a sua raiva e caluniam o seu deus de fogo e sangue. Os anjos rasgam a terra com as suas espadas. Tudo isto se repete indefinidamente. Tudo é apenas uma promessa, um contorno que baloiça como um barco, uma vaga noturna. Os velhos sinos das igrejas abafam as preces dos que não se conseguem calar. Há palavras que são relíquias santas. Com elas não se podem violar as promessas. Apenas elas nos podem salvar do abismo. Por isso é que o medo é inseparável da queda. 


publicado por João Madureira às 07:45
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