Quinta-feira, 13 de Março de 2014

Poema Infinito (189): água

 

Tu desapareces-me assim de repente embrulhada numa batalha de sílabas suspensas e as palavras desfazem-se como que por milagre. Os corpos anulam os muros. As chuvas abafam a terra. E eu desenho o tempo que é solidão e desaparecimento. As pessoas passeiam no parque e os monstros surgem de todos os lados. Sente-se o fogo e a paz rigorosa do envelhecimento. Alguém acende um cigarro dentro de um filme francês como se isso despertasse a monótona inquietação dos sexos. As zonas eróticas proletarizaram-se. Dentro dos palácios os sexos são de veludo. Sua majestade dirige-se ao banho arfante. Entretanto a cidade volta a morrer como se fosse no cinema. O vento eleva as folhas das árvores e as saias das mulheres e varre as ruas. Sombras enormes apagam os edifícios. Os espíritos devoram os lírios e observam os movimentos dos vivos. O medo espalha-se pelos canos da água. Nas copas da cidade os gatos sorriem. O vento faz crescer as vozes e leva-me consigo. Criaturas aladas voam pelo meio do medo e roubam os sonhos aos adolescentes. Os sonhos ficam frios e cortam como facas afiadas. Dez dedos abrem uma cama onde alguém se deita sozinho. A cama transforma-se num lago. Os olhos dos pássaros acariciam a penumbra e deslizam sobre a água do rio. Eu seguro-me às palavras e sinto que a dor faz parte do sistema geral da humanidade. Descubro que o universo é móvel por fora e imóvel por dentro. Por isso desaparece quando fecho os olhos. Vejo Deus a separar as águas para afogar os inimigos do seu povo. Por isso os mares produzem ondas enormes de inquietação e remorso. E os homens deslizam por cima do álcool que bebem continuamente. O mundo está repleto de mágoa. Uma luz nua desfaz a memória dos rostos antigos. O silêncio é uma concha repleta de inquietação e carícias. Ninfas cantam entre o arvoredo e alvoroçam as sementes e os pássaros. Os pássaros transformam-se em fogo. E sobem ao céu. Deus diz que quer amar o mundo e sorri como se estivesse em pânico. Os demónios ateiam metáforas e cansam o tempo e inventam novas máquinas do medo. Os homens insistem em cantar a desgraça. As crianças perguntam pelos versos. Deus inventa uma nova língua. Os faunos alimentam-se agora de imagens datilografadas e estruturam o amor. Um camponês calcula a sua necessidade de chuva e leva consigo a sua tristeza líquida. Os profetas estudam a distância perfeita para se iniciar um novo oráculo. Desenho um novo mapa afetivo dentro do meu cérebro. Dormes no meu colo. A razão é uma nova tempestade. Os corpos não conhecem o que explicam os livros. Por isso os mestres dizem cobiçar o amor e os ecos da terra e os arquipélagos da memória. O tédio é tão variável como os sentimentos. Os poemas quebram-se. A loucura torna-se fulgurante. Os mártires vigiam os velhos templos como antigamente. O amor é branco. O passado é impassível. A cintilação candente dos milagres atravessa o horizonte como se fosse uma estrela. Sou agora uma memória aberta onde as palavras se despenham. As imagens ganham novo sabor e arfam e tornam-se infatigáveis. Adivinhei que caminhavas para longe e que atravessavas as sombras. Tudo revive no caos. O vento sacode as lâminas do tempo. A solidão sobe para cima de nós. E fala. E fala. A solidão fala como uma máquina do tempo. Uma chuva imoral desaba sobre nós. O amor é uma infatigável obscenidade. Os seus frutos tecem-se na seda virgem. Ninguém foge do destino das águas do nascimento.


publicado por João Madureira às 07:45
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