Quinta-feira, 20 de Março de 2014

Poema Infinito (190): tenho-te sobre o coração

 

Amanheço livre como um deus e o teu corpo abre-se como se fosse um barco. Tudo se quer a seu tempo. Nem antes, nem depois. A terra invade os nossos corações com todo o vagar. Sobre o céu avançam os cisnes. O estio começou a caminhar cedo. Os teus olhos são uma renovada promessa de água. Ao longe ouve-se o interior da terra a ferver. A voz inamovível do sangue sob os umbrais acorda os corpos que são pó. A memória transfere-se para outro sítio. A terra é agora luz. O mar mudou com o outono. Pecamos com as mãos que pousam sobre o feno. A noite desce pelas árvores e pelos caminhos. E pelas casas. Convocamos o fogo e a respiração que arde. Convocamos a fixação dos olhos que são fogo. E o vagar do verde. E a caligrafia das folhas e o reino oblíquo do desejo e todos os corpos que se abrem às aves. Convocamos ainda o repouso do mar e o rigor de todas as casas e o sopro da origem e o modo elementar do fogo. A memória é exígua e o solo está árduo como o centeio. O amor é como uma febre. Dá-se a transumância dos nomes. Os sinais de fogo crescem com o crepúsculo. Abrem-se as flores à criação do mundo. O solo é uma carta de sinais. As espigas são como espadas. O tempo avança. Manadas de cavalos cavalgam dentro do esquecimento e fecundam-se. É este o ciclo das mutações onde os textos rompem a alegria da infância e impõem uma nova idade cega. A outra morada é uma diferente germinação onde moram novos corpos e onde o fogo permanece como origem. A boca toma posse do corpo e prova-o e determina-lhe a idade. De novo os olhos estão repletos de luz e prontos a viver e pousam sobre a terra e sobre os frutos e fazem da madrugada um lugar aberto à paixão. O silêncio apela ao delírio. Muito pôde a noite quando as aves e as ondas cresciam sobre a praia e sobre o vento. A terra é a evidência dos sorrisos. Ainda nos sangram os lábios de inocência. O corpo é terra livre. Voamos na direção das aves. O tempo invoca as colheitas e a idade das mãos de quem as faz. Sobre a erva fresca descansam os corpos cansados. As bocas têm desenhos de alegria. Nas casas as arcas rejubilam com a promessa das colheitas. O meu rio íntimo és tu, onde gosto de despertar. Aí as aves são ternas e o leito ondula com a ternura das margens. Abril é uma evidência de criação que regressa sempre. É com ele que volto ao meu tempo de paz, que regresso ao silêncio da casa, ao desprendimento do vento, ao amor conjugado da terra e do fogo. O mal é um monólogo frio, uma abreviatura divina, o tempo quando adoece. O dia fica inundado de trevas e cede ao sismo das águas e à voragem da escuridão. A liberdade ainda cresce dentro dos homens, apesar de a desfolharem como se fosse um teorema. A liberdade ainda é uma fragância que aprende a paz e nos tempera a certeza. Por vezes o mar muda de sítio e os navios acenam com os seus mastros de fogo. Cânticos heroicos espalham-se pelas ondas. Alguém sugere um duelo de sóis. Os olhos ficam com o sentido da terra e refletem os vestígios da criação. Enfio-te no dedo um anel de fogo. As águas repousam. A origem permanece precisamente aí, entre os teus seios, no limite sedoso do teu sexo, onde habitam os sinais de fogo, onde os corpos evidenciam o seu proveito, onde a boca se transforma em fruto, onde o silêncio delira, onde o tempo sabe a madrugada e o mar cresce com a sua proposta de infinito. Tenho-te sobre o coração, nesse repouso de água tépida. Vou na direção das aves com a boca cheia de palavras inocentes. Sinto ainda com mais força a tua ondulação. Os teus braços são as margens doces e serenas do meu rio íntimo. Sinto a duplicação. Tenho-te sobre o coração. 


publicado por João Madureira às 07:45
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