Quinta-feira, 27 de Março de 2014

Poema Infinito (191): tudo e nada

 

Os homens trocam brevemente de cabeça enquanto as estações mudam de sítio. Os sonhos dão a volta à terra. O mundo continua a ser uma bola de cristal cheia de segredos. Sobre ele estende-se um manto de palavras. O teu nome é o nome do mundo. Os nomes são frágeis. Alguém os escreve sobre uma mesa redonda e chora. Sobre o peito dos criadores dorme o mapa do desalento. As paisagens são bravas e o tempo é descontínuo. O vento varre os campos. Cegamos quando vemos tudo. O céu está imóvel. Os corpos vacilam. O amanhecer do mundo é uma visão densa. Deus levanta os olhos lá do alto do seu domínio e contempla o ciclo furioso das águas. O mundo é uma câmara escura onde o tempo é incessante. Nos teus olhos a luz torna-se circular e dança e agita-se com medo de morrer. Essa luz é ao mesmo tempo júbilo e tristeza. As vozes aparecem antes dos rostos e percorrem todo o espaço do medo. O tempo flutua. A visão dos gestos é agora lenta. A esta hora os poemas só encontram sombras. Sinto o tempo a sussurrar-me a sua impaciência mortífera. Os seus braços ficam luminosos e tentam abraçar-me. Dos montes sopra a melancolia. Feixes de emoções percorrem-me a memória. Tudo se dissolve no ar e flutua. O tempo fica mais apertado. Os olhos procuram os sinais da origem, os gestos de Deus no início do universo, mas só veem sombras estelares. Estou no interior da casa. O seu silêncio vibra. O tempo trabalha a matéria e o vazio e depois desliza pelos símbolos escuros. O tempo aumenta. O tempo é luz. O tempo queima. A velocidade da luz chega primeiro que a própria luz. O tempo constrói os seus próprios labirintos. A morte é a imperfeição absoluta porque absorve todo o tempo. As mãos de Deus também chegam tarde e tocam todas as coisas que já desapareceram. Os sedimentos da memória caem como finas partículas atómicas e depositam em nós o brilho denso da poalha. O tempo alimenta-se de coisas perdidas e de pequenos destroços dos rostos e dos sonhos perdidos e dos nomes dos lugares e do desaparecimento. O tempo por vezes é um eixo imóvel de desespero. O tempo devora os povos e as paisagens e as horas. Estranho a velocidade da noite e o movimento das estrelas falsas e penso no bosão de Higgs. A matéria nasceu dos golpes violentos do nada quando a realidade era uma devastação cega. A matéria apareceu de repente à velocidade das imagens excitadas. Foi quando Deus fechou os olhos porque viu toda a matéria a ferver. Deus ficou irado e criou o tempo e as erosões e os tumultos e o desaparecimento e os milénios e a ausência e a sorte e a imensa fluência do universo e os buracos negros e os ruídos do Big Bang e a solidão infinita do céu e a gravitação da matéria e o vácuo e as palavras frias e as explosões de loucura e o silêncio dos astros e toda a matemática da desordem e toda a violência das radiações e toda a desordem do universo e os labirintos temporais e a luz intensa da mágoa e a turbulência dos quantas e a solidão das estrelas. Então o espaço aumentou e a luz aumentou e o tempo também aumentou. E Deus nada fez. Alguém por Ele nos criou. Então as águas começaram a agitar-se, a luz começou a mexer-se e o dia chegou à velocidade das formas e da vontade. Daí a nossa intensidade mortal, daí as palavras que movem o pensamento, daí a equação alucinada da vida. Daí a aceleração dos corpos e a cega experiência da memória. Daí nós. E vós. E eles. Daí o tudo. Daí o nada. 


publicado por João Madureira às 07:45
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