Quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Poema Infinito (206): vórtice

 

O teu olhar representa a pomba da paz. O meu traz no bico um ramo de oliveira. Este não é sequer um lugar triste. Esta é a rua que abre caminho a muitas vidas, onde já passaram grupos de raparigas luminosas e de rapazes com chapéus com penas, onde os pequeno-burgueses regressavam às suas casas com a consciência tranquila de terem participado na revolução democrática e nacional. Só que pouco a pouco foram ficando esquecidos como se fossem emblemas infantis. Agora tentamos perceber os croatas, os bósnios e os sérvios e também os russos e os ucranianos e ainda, e para sempre, os árabes e os judeus ou, mais precisamente, os palestinianos e os israelitas. Ficámos a saber que o ódio não necessita de razões verosímeis para vir ao de cima. O ódio contém a característica plausível da sua interminável aleatoriedade. Com ele se justificam as guerras e as razões verticais da paz. Verificámos com toda a intensidade que os guerreiros cegos de Moscovo, ou Kiev, ou Sebastopol, nunca desistiram de ouvir música nos bares ou de pregarem a liberdade do exemplo bélico ou de cantarem refrões inúteis que embalam os bêbados durante as noites de vigília nacionalista. E fumam cigarros amargos. E repetem o seu amor absurdo e impossível uns aos outros, como prostitutas. E dançam pela cidade fora e gritam a sua alegria triste enquanto ouvem música disco-sound com fundo de metralha e de minas antipessoais. Nos intervalos dão uma oportunidade à paz e proclamam-na ao resto do mundo, que já dorme. Mas voltámos sempre a Jerusalém, como se fossemos sombras que se alimentam do silêncio quente do médio oriente. A cidade sagrada revela-se-nos através da janela. Admiramos o seu esplendor feito de nada e de coisa nenhuma. Aqui as preces resplandecem dentro do seu clamor de cristal. De pouco valem. Abandonamos os nossos nomes, porque nos sabem a mel. E isso aqui é perigoso. Deixamos de atinar com quem verdadeiramente somos. A isso nos obriga a tradição. Ajoelhamo-nos junto ao muro sagrado como se fossemos absurdos judeus e também como se fossemos árabes despropositados ou cristãos paradoxais. Afinal somos isso tudo e, ao mesmo tempo, nada disso. Estamos entre o dia e a noite. Havemos de encontrar alguém que definitivamente nos explique esta terra. Descemos ao abismo da sua história cruel, onde todas as religiões monoteístas derramaram e beberam o sangue dos infiéis. Onde a crença entrou por cada poro nos corpos dos mártires e neles causou feridas que deram sempre origem a feridas ainda maiores. Esse é o preço da fé. Aqui ensina-se às crianças como é fácil a morte quando se luta em nome da vida. Aqui trabalha-se o amor a Deus que é o ódio ao infiel. Afinal infiéis somos todos nós. Afinal o céu onde temos o lugar reservado fica no mesmo sítio do inferno que os outros nos determinam. A estrela de seis pontas, o crescente árabe, ou o homem crucificado, pedem-nos que o céu nos observe e nos mostre a porta estreita por onde teremos de entrar. As noites no deserto são como espelhos de mil e uma faces. São como histórias que nos defendem da morte. A sede mais antiga é sempre a que nos salva da certeza da redenção. Dizem que não há milagre como o primeiro. É chegada a hora de lermos em voz baixa o livro antigo que comprámos no alfarrabista, não vá Deus acordar do seu sono. Olhámos pela janela e observámos lá ao fundo a luz que celebra ainda a dor de todos os supliciados em nome da salvação dos crentes. Duas grossas lágrimas brilham no vincado rosto de Deus-Alá. Nos nossos olhos nascem duas estrelas em vórtice. 


publicado por João Madureira às 07:45
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