Quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Poema Infinito (207): a sombra dos dias

 

O clarão da madrugada irrompe sereno. Sonhei em tempos ser um cavaleiro andante que abria as portas do silêncio e da solidão a golpes de espada. Afinal, toda a beleza possui o mesmo brilho vulgar. Todo o sonho é piedoso. Toda a ventura é derradeira. Oiço ao longe piedosos senhores abafando blasfémias enquanto as suas esposas suspiram desejos. A vida constrói-se em ciclos de loucura. Aos retos sempre lhes sobejaram os inimigos. Tenho gravado na minha pele a tua alma. Atendes a minha voz suspirando. O amor começou numa tarde outonal. Olhavas para mim como se eu fosse o vento. Tu eras uma onda. Os caminhos eram longos. Os sonhos eram longos. O mistério era real. Assim como a metafísica. Todas as coisas possuíam mistérios doidos. A verdade era lúcida. A filosofia era um segredo mal guardado. Para nós a arte resumia-se a estátuas vivas. O universo possuía apenas um sentido íntimo. Tudo se esvai. O mar engana-nos sempre com a sua espuma. O fim expande-se. Todo o começo é uma ilusão. As certezas são espadas que nada defendem. Todos vivemos na zona de sombra entre a mentira e a verdade. De um lado está tanta luz que cega. Do outro permanece a escuridão que assombra. Por isso os meus sorrisos transportam ironia. A vida não repete teologias. Ainda sou dono das minhas horas e da minha ternura lúcida. O tempo é um círculo infinito de silêncio. Dentro dele as palavras transformam-se em gritos. As palavras pesam-nos. As palavras brilham. Tudo é inquietação. A doce ilusão da ternura, a breve aceitação da gratidão, a ironia da liberdade regularizada, a matemática das previsões, a teoria da desolação, a angústia da fome, as faces trágicas das vítimas, a loucura dos profetas, as profecias dos loucos, as tragédias significantes e insignificantes, a esperança, a vergonha, o silêncio, a loucura, a inconsciência dos sonhos. A solidão vem de noite embrulhada no segredo dos enormes silêncios. O sono é uma floresta de rumores. O rosto dos justos é feito de vento e sol. Por isso amamos a sua limpidez. A sua imagem possui a luz do futuro. O vento da manhã inclina o teu rosto. Os meus olhos pedem o teu corpo. As estrelas brilham por cima dos teus cabelos. As minhas mãos ficam transparentes e irresponsáveis. Volto a navegar nos teus olhos enquanto mordo a solidão. As árvores aparecem. Nelas o tempo começa a partir. Nós ficamos. Olhamos para as primeiras luzes que descem a colina. As andorinhas voam perplexas dentro da sua brevidade. São como os anjos que andam pelo mundo espalhando lendas de harmonia e dissonância. Afinal o amor tem asas. Por isso não se pode adiar. Os meus olhos no teu corpo. A ânsia. A substância. A delícia. O espaço. O grito. A libertação. O gemido. A oração. O grunhido. A ejaculação. A inocência absoluta. As sensações contraditórias. As considerações longas, as razões tristes, as causas engraçadas. O tempo fica com asas largas. A nossa idade fica nostálgica. O silêncio fica branco. As mãos desenham o tempo da terra e atravessam a leveza e agarram as palavras insubmissas. E dançam. As mãos dançam e incendeiam as paisagens. O tempo espalha as memórias da infância e desenha raízes nos nossos rostos. As memórias deixam mágoas. As sombras do dia ficam mais compactas. Transformam-se em retratos de família. E choram.


publicado por João Madureira às 07:45
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