Quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Poema Infinito (210): germinação

 

O teu olhar guarda harpas. A luz germina nas nuvens. O mar é uma nau infinita de azul. Os campos cheiram a sol e a terra semeada. Sou um pássaro de distância. Levanto voo devagar carregando dentro de mim ilhas adjacentes. Os amantes, já velhos, citam saudades. Saudades dos rios cavados pelos seixos e de árvores longínquas. Saudades das suas mães mondando flores silvestres. Agora a sua sede é anil. As mãos sustêm a glória dos seus corpos e descobrem o sentido das coisas. O silêncio é uma catedral de vento. Na minha memória, o lenço da minha avó floriu enquanto ela se penteava. O seu rosto ficou redondo e o seu corpo permaneceu alto como um freixo. Voam no tempo os gestos perdoados. As carícias pesam como chumbo. O silêncio acentua-se na tua face. A primavera cada vez demora mais. Tudo agora é breve e lento. Os deuses são remotos. Parecem homens perdidos no mar, ou no deserto. Homens que gastam toda a sua energia enquanto sonham e que esperam as horas submissos deixando o seu tempo intacto. A saudade é uma névoa que se estende para lá do horizonte. Aí estão os homens que são desperdícios de anjos. Aí estão as mulheres que são sobras de estrelas. Aí estão as sinuosas linhas das nossas vidas. Os nossos olhos são como pérolas secas. A saudade é uma maré de tristeza. A nossa voz deixa-se percorrer pelo vento e os nossos passos esboçam desenhos inúteis. Toda a distância é líquida. Por isso a minha alma veste-se de choro e desilusão. Tudo fica abstrato na minha cabeça. O mar tinge-se de branco e nele navegam estrelas de perfil. Os navegantes vestem-se de lágrimas e põem-se a olhar para o infinito enquanto suspiram. Antigamente, as crianças acordavam cedo e espreitavam o dia. Agora carregam vagares que crescem em espiral. Toda a tristeza é um rebanho de saudades. Já não existem filhos pródigos nem gritos no vento. Agora a fúria é vã e tão estéril como a cobardia. Quando me falam de verdade já nada entendo. Embaraço-me com as tardes. As palavras ficam do tamanho da espuma. Todos os caminhos empreendidos ficaram a meio. Os sonhos empanturraram-se de repastos frugais. As imagens encheram-se de neblina. Até os anjos são agora inseminados artificialmente. Este é o tempo de homens cobertos de penumbra que beijam os anjos na face e empalidecem de prazer. O amor entardece vagamente. Os olhos dos deuses ficam invisíveis e nem assim choram. O passado possui o perfume da morte. O destino vibra antes de acontecer e entranha-se na alma dos poetas. O sexo é a inocência a arder. Por isso os jovens recusam carícias demoradas. Por isso os seus corpos são poemas. Daí acreditarem que existem guerras justas. Daí apreciarem o cheiro perigoso da glória. O seu tempo não é de tristeza nem de alegria. Passeiam na tarde a sua ilusão contida. E correm com andamentos de seda nas avenidas do vento. São como flores abertas ao sol. O seu silêncio é sobrenatural. Tentam muitas vezes apartar as sombras do caminho. Dançam como peixes poéticos. São como pássaros leves de coração pesado. O tempo voa sobre as flores indiferentes. A vida transforma-se num verbo moral. Tudo fica breve. Mais uma vez ficámos sem compreender o tempo que dura o eterno retornar. 


publicado por João Madureira às 07:45
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