Quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

Poema Infinito (214): a perseguição do desejo

 

Apreciamos a liberdade da chuva e a liberdade do sol mesmo quando nos chega distorcida pela velocidade do pensamento. A luz chega-nos com a velocidade das vozes, atravessando lugares, trespassando fluidos, percorrendo os espaços, cavalgando a totalidade das memórias humanas. Abrem-se todos os lugares da infância. Toda a natureza é brava e violenta, por isso nos atrai. Agora as paisagens são catastróficas, alimentam-se de movimentos exteriores, reproduzem-se dentro da nossa inquietação. São passagens ilimitadas dentro dos olhos que se incendeiam. O prazer afunda-se através da pele. Uma espécie de assombro agita o mundo. Respiramos a lenta simetria do desaparecimento. Oscilam os mares, misturam-se os climas, flutuam os sonhos. As paisagens tornam-se leves. Até a terra se agita com o movimento dos nossos olhares. A luz diminui com a cadência das idades. Tentamos apagar os sinais do tempo. As almas bravias fincam-se nas plantas. A solidez do mundo decai. Os desiludidos bebem até a sua própria sombra. Tudo se metamorfoseia. Nos lugares mais profundos encontramos a água. O tempo tomba pelo eixo da matéria. Esse é o seu modo oculto de reprodução. Os objetos inúteis caem na sua forma imóvel. Fechamo-nos dentro das nossas próprias emoções. Distinguimos perfeitamente as pulsações das pessoas que abrem as portas do tempo. Essa é uma realidade longínqua. Algumas vozes mais puras sustentam a realidade. O amor simples encontra-se nos gestos humildes. O amor intenso é leal ao silêncio. Tentamos recordar as vozes invisíveis, os gestos milenares, o nascimento do vento, a raiz densa das tempestades, a realidade das explosões solares, a cara dos deuses, o nascimento das estrelas, as palavras que brilham, o sossego da luz, o equilíbrio das pontes astrais, toda a vibração do esforço humano, as cidades varridas pelas vagas da opulência, o esforço dos desertos. O excesso dissimula o excesso. Entendemos a caligrafia límpida do ar, o exato repouso da terra, a ordenação da água, a paciência ritual do fogo. Entendemos a paciência cerimonial das ondas do mar e os gestos caligráficos da vida. Os nomes transformam-se purificados pelo assombro. O tempo oscila. A violência dança mesmo à nossa frente. Parece que o mundo continua disposto a acreditar na palavra sagrada. Daí a lentidão do entendimento. Sobre a terra tombam os paramentos da fé. As palavras mágicas tentam orientar-se dentro dos labirintos. As paisagens expandem-se. Tudo brilha impelido pela ascensão dos mitos. As palavras aceleram a memória. Falamos do misterioso silêncio dos astros, do murmúrio dos mares, da mágica rutilação da arte, da arte oculta do mundo, da arbitrária violência do caos, da densidade monótona dos sonhos, da louca rotação das almas, da desordem calma da dor, das cores maravilhosas do apocalipse, da cintilação interior do desaparecimento e do isolamento perfeito das distâncias. As palavras são rápidas quando se abrem. Os homens perseguem o desejo para não enlouquecerem. As mulheres desejam aproximar-se da alucinação. Nascemos e morremos a tentar perceber o porquê das coisas. 


publicado por João Madureira às 07:45
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