Quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Poema Infinito (215): perplexidade

 

Admiro em ti essa poderosa arte da criação de expressões, essa maneira própria de formar gestos, essa intenção lúdica de extrair sons da ternura e do medo. Depois murmuras poemas antigos com os cabelos encostados aos vidros húmidos da janela. A chuva lá fora cai com violência. As pessoas lúcidas elaboram teorias da vida e do destino e dedicam-se a congeminar axiomas metafísicos e morais. Depois adormecem até ser madrugada. Essa é a fase espantosa do assombro. Estudamos agora as grandes extensões de terra, o mar sob o céu escuro, a duração dos dias e das noites, o voo duplo das gaivotas e dos corvos, o caráter subterrâneo das raízes. Procuramos tudo o que é efémero para lhe dar sentido. E a vida transforma-se numa duração ordenada exibindo alguns traços de divindade genial. As coisas olham para nós procurando vigiar-nos a inocência. Os horizontes tornam-se sucessivos e reproduzem-se revelando a sua forma material. Estudamos então a cidade com a atenção inquieta dos gestos. Tudo permanece intacto no meu desequilíbrio interior. Os poemas são demasiado equívocos e frágeis. A minha personalidade varia dentro dos seus limites. Toda a solicitação humana se torna imprecisa. As imagens do tempo remanescem imateriais. O vento levanta-se para o lado do mar. As janelas e o telhado da casa gemem a sua rigidez de madeira e barro. A solidão é novamente uma ameaça. Adormecemos sem arrependimento. Sonhamos a possibilidade de voltarmos a aprender a falar. A hora é de decadência e de espasmos. Os sentimentos transformam-se em palavras. O tédio desce das montanhas. As tempestades desenvolvem-se e desmoronam-se enquanto nos beijamos. Percorremos o esboço dos nossos corpos com a ponta dos dedos. Libertamos as nossas deliberadas obsessões. As lágrimas correm-nos pelos olhos. E exigem paisagens e fragmentos do céu e da terra. As palavras sentem-se inúteis e querem sair dos poemas. Homenageamos a antiguidade e o seu estilo memorativo, a reminiscência interior dos presságios, a ousadia dos olhares lógicos, a navegação das cópulas, o voo dos gestos, a celebração silenciosa da rutura, a intenção paranoica dos elogios, a origem das descrições, a espaçosa genealogia dos teus lábios, a extensa nomenclatura das imagens, o espírito reversível das metáforas. A cidade fica abstrata, os movimentos dos corpos fragmentam-se, o lirismo transforma-se num símbolo injusto. As palavras ficam cinzentas porque procuram evidências. As ondas entram pela porta do quarto como se fossem uma nova realidade filosófica. O mundo perde por momentos a sua qualidade poética. Toda a eternidade é arbitrária. As almas criam-se a si próprias e movimentam-se dentro da sua obsessão. O destino é uma intenção húmida. Os espíritos antigos tentam esclarecer a verdadeira natureza das profecias. Improvisamos o desassossego. Elucidamos os crentes da apócrifa memória dos poetas. Por fim, ganhamos o conhecimento absoluto da perplexidade. 


publicado por João Madureira às 07:45
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