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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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18
Set14

Poema Infinito (216): o outro sentido do universo

João Madureira

 

Por vezes o universo toma outro sentido. Sobra-nos no fim do verão um sorriso triste. A alma da cidade fica cada vez mais longínqua. Embalamos a chuva com os nossos braços já cansados. Todo o espaço é misterioso. Aproximamo-nos da metafísica das horas. Aí nasce a nossa ansiedade. Os nossos desejos balouçam. Ficam-nos os gestos. Os gestos que se abrem dentro do medo. A ausência. O estremecimento dos olhos. O abismo dos nossos lábios em riste. As horas arrastam os sonhos. As ideias ficam mais tranquilas. As tardes ficam eternas e adornadas de torpor. As sombras ganham ritmo e balançam. As fadas ficam tresloucadas e dizem sentir saudades dos gnomos e das noites voláteis e do som das badaladas da meia-noite e das estrelas e do luar. As cidades ficam sem horizontes. Onde se refugiou a esperança? Os sonhos estão cansados. Até os voos das aves entristeceram. Passou o tempo das asas simbolizarem liberdade. O erro mudou. Continuam a nascer e a morrer deuses. A eternidade é agora distinta. A fé vive a ilusão do seu próprio culto. Os desejos são fraquezas. As manhãs são agora dos outros. Deixámos de acreditar na esperança. Os sonhos vivem de noite. São invisíveis. Dormimos na utopia de existir. Nesse lúbrico espaço negro, nesse íntimo torpor do desaparecimento. Os símbolos perderam o seu significado interior. O silêncio cerca-nos. Converteram a magia em estátuas. Recordamos o som das águas lentas, a sua impaciência líquida, o seu sonho atrasado. Transformaram os jardins em desertos. Tudo é passado. Tudo ficou vago e incógnito. Já não nos guia a razão mas o tempo incógnito. A loucura acode-nos quando tentamos compreender. A verdade não tem poiso. Lemos a dor como se fosse ferro, mas é apenas um comboio de corda. As flores acordam nos canteiros e influenciam-nos com o seu disfarce. Misturamos o sonho e a realidade. Ouvimos brincar as crianças. A sua alegria continua a ser um enigma. Por isso acreditamos na saudade. O céu dorme enquanto chove. A sua vontade é como um sentimento cego. Grande mistério é a alegria da luz. No entanto os nossos momentos são escuros. Queremos acreditar de novo na felicidade, no seu sossego incerto. Os anjos erguem a voz. Deus dorme no seu silêncio. A solidão fica totalmente preenchida. E ostensiva. Despertamos do sonho de que somos feitos. Essa é a nossa dor mais antiga. É uma verdade falsa. É uma realidade de sombras. Já nos cansámos da mocidade e da sua falsa esperança. Agora seguimos as estações com o olhar e ficamos tristes com o pôr-do-sol. A tristeza sossega-nos a imaginação. Fingimos não compreender aquilo que compreendemos. A liberdade aprisionou-nos dentro do seu labirinto. Apesar disso, a liberdade, como a chuva, engrandece os caminhos por onde corre. Esse é o mistério das coisas. O sentido do universo é não ter sentido nenhum. Essa é a sua incrível razão de ser. Ilumina-se o tempo por dentro. O dia apaga-se. Os nossos olhos brilham como estrelas misteriosas. Sorrimos como se fossemos anjos anónimos. Abrimos as mãos que são as nossas janelas secretas. Por isso terminam em segredos. 

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