Quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Poema Infinito (217): as cúpulas e as arestas

 

A escuridão brilhante chama-nos para junto de si. As noites são agora vastas. Seguramos as horas como quando éramos pequenos. Continuamos a construir o nosso mundo, apesar de nos tremerem as mãos. As suas cúpulas são imensas e resplandecem. As arestas douradas dos telhados são o início do espaço onde os sentidos se formam e se constroem. Ouvimos o medo. Escutamos as emoções. Os sentidos adquiriram asas. As nossas almas estão vestidas de silêncio. As horas fecham-se abruptamente. Nas árvores nasceram folhas como espadas. O desejo envolve-nos como se fosse fogo. Pintamos os nossos sonhos no céu em formato gigante. Os montes crescem-nos nos olhos como incêndios. A esperança é como um deserto. Os amigos estão longe, mal os ouvimos. Caem da vida como ninhos. A sua memória é um passarinho de bico amarelo e garras cinzentas. Um passarinho de olhos grandes, que faz pena. A angústia vai-se escoando. A saudade tem sedes diferentes. Por isso nos dói o coração. Todos os ofícios possuem os seus segredos. Até o de viver. O vento vem agora do mar. É oscilante. Vem beijar-nos no rosto, sacode os montes e esboça um novo crepúsculo. O nosso querer é como uma vaga onde os dias se afogam. Os anjos estão estranhos. Também eles sentem saudades da sua antiga humanidade. Estão pálidos e estendem as asas. Proferem que tencionam voar sem margens, pois descobriram que as chamas não os atingem. Claro que andam a ler livros estranhos às escondidas de Deus. Deus acusa-os de deliberadamente se terem esquecido de tudo o que é incomensurável. Lembra-lhes que sozinhos e sem a sua graça divina nada valem. Com o peso da divindade, aos anjos abre-se-lhes um abismo no peito. Exigem de novo ter dor e prazer. Deus emudece de indignação e delineia novamente uma estratégia de inacessibilidade. Com Ele tudo volta a perder sentido. As palavras já não possuem de novo casa. E por isso caem de novo a seus pés e transformam-se nas suas sandálias de veludo. O seu manto é como uma enciclopédia enorme que ninguém consegue consultar. Fixo-me no teu rosto. Fixo o teu olhar. Perante ti preencho os meus sentidos. Lá fora o rebanho persiste em pastar. Cá dentro, as coisas continuam ajoelhadas. As imagens remanescem obscuras e atormentadas. Fazem lembrar mendigos que arfam continuamente as suas ladainhas. O tempo corre. Nós repousamos. O pomar velho perdeu definitivamente a primavera. Dos seus ramos redondos já não sai nenhum perfume. A decadência das coisas cresce como os incêndios. As palavras ficam temerosas e caladas. Sentimo-las nubladas na nossa boca. Cobrem tudo com o seu silêncio. Mesmo os anjos. Até Deus. Os nossos melhores sentimentos começam a dilatar-se e a ficarem cada vez mais longínquos. A idade continua a correr no nosso repouso. O outono é o novo senhor do tempo. As horas inclinam-se e golpeiam-nos com a sua firmeza metálica. Acontece a beleza e o pavor. Estamos perto da terra. A vida ainda nos chama. 


publicado por João Madureira às 07:45
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