Quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Poema Infinito (219): a decadência da fé

 

Os pássaros já não pousam nas árvores porque as protegeram com grades. Por isso escurecem o seu gorjeio. Os pescadores já não pescam poemas, apenas apanham peixes estandardizados de aquacultura. As crianças já não transportam nos bolsos o sol e os passarinhos nem caem no rio onde mergulhavam os pés rasos de água. Os dias aparecem-nos chorando com as suas bocas pequenas de cobras. Os rostos das pessoas parecem feitos de chão e desalento. Os rios vão-se embora atrás das andorinhas. Alguma da sua água fica guardada nos nossos olhos. As nossas bocas ficam secas como pedras ao sol. Também o vento deixou de subir ao cimo das árvores. Alguém engoliu os últimos raios de sol. Recordamos o tempo em que o vento brincava com os pássaros perto do nosso quarto, junto ao pomar. As palavras viajavam pelo chão claro das ruas, seguindo a água. Então inventávamos barcos feridos que conseguíamos salvar cantando canções de alegria. Subíamos até ao céu ascendendo pela árvore da esperança. Bebíamos água no rio, apanhávamos as sombras da tarde e dávamos beijos com os lábios repletos de aromas molhados. Brincávamos com as borboletas que se alimentavam de luz. As nossas mãos derramavam os frutos maduros com a arte do amanhecer. Agora os sorrisos fogem dos nossos rostos e os pássaros ficam desinquietos nos pontos cardeais. Molhamos o rosto na chuva. As nossas mãos ainda carregam algum amor. Pousamos o olhar nos rostos que amamos como quem planta flores nos jardins. Por vezes comentamos o sabor que a tarde deixa nas nossas bocas. O azul possibilita que as garças voem no firmamento. Temos saudades do cavalo de pau e das estrelas verdes no céu. Descobrimos que mesmo as estrelas amadurecem e ficam tristes. Temos saudades do tempo em que os frutos cheiravam a verão. Agora os dias escondem-se atrás das noites e as manhãs são como escaramujos. As nuvens comem as árvores mais viçosas e o vazio desfolha as noites. O silêncio adquiriu a forma das raízes. No crepúsculo cantam as últimas cigarras. Os pássaros voam desconfiados por dentro do orvalho. As mãos aumentam pelo meio do tempo. Ao longe, o luar adormece as árvores. A gente mais crédula ainda espera pelos sonhos. As plantas ensinam-nos o chão. Quem se mete pelos atalhos encontra sempre o inferno. O musgo sobe-nos até aos lábios. O entardecer é como o gume de uma adaga. Experimentamos a sensação de nunca termos onde chegar, de sermos como as coisas que não têm boca, de nos sentirmos como crianças secas. Agora entregamo-nos aos objetos. Somos como formigas sem sono. Os novos ícones desfazem as flores e as aves. O tempo de esperar começa a desaparecer. Apesar de termos ainda alguma fé, estamos sozinhos como os sorrisos tristes. A tristeza veste uniforme e senta-se ao pé de nós como se fosse nossa amiga. Estamos silenciosos como ruínas. Mastigamos as esperanças destruídas. A nossa esperança reside no facto de os nossos corpos ainda se arrepiarem diante das flores silvestres banhadas pelo orvalho da manhã.


publicado por João Madureira às 07:15
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