Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

Poema Infinito (223): os limites da tragédia

 

Mulheres histéricas afirmam que a cidade foi arrasada. Bombas esféricas tombam sobre os nossos olhos. Os poetas representam a sua própria tragédia. A sua antiga alegria caiu-lhe aos pés. As mulheres histéricas abandonam as suas deixas e fenecem incorporando os papéis desempenhados. E choram, transfigurando a antiga alegria em susto. Os homens, que tudo ansiaram, destroem tudo o que já foi seu. A tragédia tem os seus limites. O céu desfalece. As suas cabeças estão em chamas. As hordas dos bárbaros vieram a pé ou em barcos enfurecidos pelas tempestades. Novas civilizações são passadas à espada. A sabedoria dos antigos desfaz-se em névoa. Nessas noites de angústia, os ventos marinhos varrem as esquinas. Cai o pano. A história passa a ser outra. Os novos guerreiros reconstroem os dias felizes. Esculpem-nos em lápis-lazúli. As casas enchem-se de perfume. Os homens deliciam-se a imaginarem as mulheres sentadas o observar as montanhas e o céu. Os dedos habilidosos dos pastores tocam melodias dolentes. Os olhos das mulheres mais idosas brilham entre as muitas rugas. A sua antiguidade é alegre. Nas encostas, os ramos das ameixoeiras e das cerejeiras cobrem-se de flores. As raparigas dançam seguindo o movimento do relvado macio do jardim. Uma brisa fresca levanta algumas folhas do chão. As raparigas fogem da sua juventude amarga. E libertam-se no meio da multidão. As nuvens negras afastam-se. Os homens sentem-se estranhos em casa. Sentem-se felizes. Por vezes enlouquecem. Mesmo assim, deixam terminar as danças. E amam as bailarinas como se fossem livros permanentemente lidos. E admiram a delicada força que se esvai dos seus corpos. A sua tentação é serena. E suspiram enquanto dormem. O seu espírito é afagado pelo crepúsculo. O seu tempo é circular. E escutam as flores. E sentem-se felizes porque a chuva cai sobre os campos. As manhãs são como auroras. Nos seus olhos espalham-se imagens tranquilas de aves esmaltadas. As horas são agora um pouco mais tranquilas. A eternidade aguarda-os com a sua silenciosa indiferença. O seu amor cresce calmo. O tempo adormece. Cai de novo o pano. A história passa a ser outra. As mulheres sonham com a sua beleza passada. Com os seus lábios vermelhos. Com o seu desolado orgulho. Com a esperança em novos prodígios. E acariciam as almas dos homens que vacilam e beijam os seus rostos solitários. O mundo é uma estrada verde que elas percorrem com os seus pés errantes. No entanto não saem do sítio. E desesperam. E vacilam. E cedem. Lembram-se de escutar cantos de amor sem nunca repousar no seu verdadeiro significado. Lembram-se de adormecer ao lado da lareira acesa. Lembram-se da sua sombra silenciosa. Lembram-se do riso nos seus lábios tristes e do júbilo vadio das estrelas e da beleza entristecida das suas mães e do seu destino incolor. Querem erguer-se. E partir. Casaram-se com meteoros. Depois eles fugiram e extinguiram-se. Os lírios consumiram-se nos jardins. Os pássaros brancos foram morrer longe das mãos amigas. É esse o seu triste destino. Os camponeses abandonam a sua solidão e gravam nas cruzes de madeira as lamentações. As suas meditações transformam-se em memórias. Cai pela última vez o pano. O tempo deixa de existir. Tudo fica perfeito como a sombra de Deus.


publicado por João Madureira às 07:05
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