Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

Poema Infinito (226): o amor incompleto

 

Os teus olhos são como as pombas de Salomão. Lembras-me romãs, ovelhas brancas, corças e rosas sopradas pelo vento. Ao teu lado sentam-se os deuses que parecem a voz do riso e que fazem tremer de prazer o tempo. O amor debruça-se sobre o teu rosto que é um instante, como o último beijo antes de adormecer. Bebes-me a vida, por isso me julgo imortal. A noite é perpétua quando dormimos juntos. Murmuramos os nossos nomes enquanto jovens. Experimentamos a ciência antiga de fugir ao tempo. Longos são os pensamentos do amor quando se prolonga a tua ausência. Por vezes até a chuva para. Fico com o coração apertado. As nuvens fogem. Os pássaros voam e desaparecem. Teimo em amar-te. Respiro suspiros. Respiro a alma dos peregrinos e admiro as suas lágrimas. O amor é como um segredo sobre pressão. Os meus olhos dilatam-se. A esperança renasce. As folhas coloridas apagam os caminhos. O outono é uma montanha. Encontro-te sempre nos trilhos que não conheço. As nossas cartas de amor possuem uma escrita rendilhada, são compostas de suspiros e de saudade. Pressinto-te a penteares os cabelos no meio das cerejeiras em flor e debaixo de um toucado de nuvens. Quando sorris, a minha tristeza é levada pelo vento até ao dia seguinte. E aí te espero de novo. E os teus olhos voltam a brilhar. Os meus sonhos são como segredos que se transformam em ondas. Os campos estão limpos, a terra apetece, a brisa da tarde traz-nos a paixão. O destino mora nos nossos corpos como se fosse um anjo tranquilo. O prazer faz-nos chorar lágrimas luminosas. Vamo-nos confundir com o orvalho. Ninguém nos pode roubar a noite. A verdade protege-nos dos elogios. O desejo é invisível, mas realiza-se. É como um juramento distante. A claridade da aurora abre o caminho. O desejo queima-nos a pele. Por vezes o amor é um contentamento mesquinho que se espalha como o fogo. Por vezes o medo mistura-se ao prazer. Por vezes o amor parece ilícito. Como se necessitasse de um juramento secreto. Pelo olhar se vê o coração de quem observa. Imagino o amor como uma fé, um fogo honesto, uma feliz coincidência. Dentro dele o tempo imobiliza-se, as horas ficam sem préstimo e a beleza fica sem mérito. Os olhos veem o que não veem. Depois apagam-se e acendem-se com as luzes de natal. Todo o amante padece da reminiscência do próprio amor. Pobres dos que morrem sem ser queridos porque desaparecem com a dor do espanto. As lâmpadas de fogo resplandecem dentro do segredo dos desejos. O amor é capaz de imortalizar tudo aquilo que é mortal. O tempo volta ao seu redil. Faz-se de novo tarde. É tempo de memorizar os cuidados futuros. Todo o passado é dor. Nos jardins as flores murcham, como se estivessem loucas. O amor é agora aflição. Mesmo que o tempo enfeite as árvores. O amor reacende as feridas. Apertamos as mãos e voltamos a jurar o amor como último suspiro, onde o prazer é como uma maleita doce. Os nossos corpos voltam a ficar despertos como as almas danadas. O amor sofre por ser uma mudança imaginada. O amor não muda nada porque receia a mudança. No entanto, só do teu amor me pode vir recompensa. Escrever um poema de amor é uma coisa estranha. O tempo fica lento. Os jardins incendeiam-se. Os sexos resplandecem. Sonho-me como se fosse uma espada. Escrever um poema de amor é a coisa mais estranha do mundo.


publicado por João Madureira às 07:15
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