Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2015

Poema Infinito (232): o paradoxo da luz

 

Encontro-me como uma criança diante do fogo. Aliviaste-me da angústia da negação da poesia. A paisagem é feminina. O teu rosto expõe um sorriso com lágrimas. As cores ressoam em nós. Somos como espelhos que nunca embaciam. Os nossos corpos refletem-se na unidade impossível do tempo. As razões da perdição são imensas. Os trilhos sobre a terra sobem até ao limite do céu. O horizonte é ainda um motivo desconhecido para os olhos, apesar de ser o elemento necessário para as aves. Dentro de nós nascem as chaves dos olhares. A natureza é nossa. Identificamos as estrelas. Sob o céu rebentam os botões das flores e as primeiras folhas verdes. O mar cobre-nos com as suas asas azuis. E o sol ocupa o lugar dos corações. O sonho é um devaneio. A luz é a imortal função da vida. A luz. A luz real. A luz imaginada. O amor possui o peso específico do acaso. O tempo transborda. O tempo colide com o espaço. Alguns corpos ganham a lividez do abandono. Outros ficam em ruínas, como se a infelicidade tivesse limites. Os olhos começam a perder a confiança do seu brilho. As mãos separadas não conseguem segurar nada. Deixamos de sentir o peso do repouso. Todos os caminhos repousam dentro da sua inquietação. O amor é um esboço de fogo. As nossas sombras estendem-se sobre o jardim. Fazemos parte do entardecer. A minha imobilidade é agora tua. Sou um voluntário da revolta. Essa é a minha solitária obstinação. O tempo continua a escorrer-nos pelos dedos. E gira em nosso redor à velocidade da terra. O teu sorriso continua leve e fresco como uma manhã de maio. As palavras são como poeira dos astros. A vida confia nas respostas do silêncio. Os teus olhos pertencem ao meu mundo. As suas lágrimas convocam o brilho da luz. Sinto-me o gérmen da desordem. A certeza da morte destrói o equilíbrio do tempo. Todos os passados se dissolvem dando origem ao silêncio. Dantes orgulhava-me de entender o mundo através da rigidez das palavras. Hoje acontece rigorosamente o contrário. O esquecimento possui a propriedade destruidora da reminiscência. A solidão possui a sua própria sedução, a estúpida caraterística do prazer pelo sofrimento, a modéstia do orgulho, a perversão do mérito, a ruína perfeita da exegese. Agarramo-nos à nossa própria queda, como se fossemos um barco que se funde com a água para voltar a nascer. Apenas os amores imperfeitos geram tempestades. Nós iremos até ao fim. Somos o corpo memorável de um poema traduzido do infinito. Cantamos o seu ritmo, a sua textura, a sua realidade oculta, a sua dúvida evidente, a sua imperfeita verdade. Apreciamos as delícias da banalidade habitual. A passagem do tempo é uma vulgaridade infinita. Por vezes as palavras chegam-nos como uma revoada de pássaros. Algumas guardamo-las no calor da nossa boca embalando-as com os lábios. A claridade é para nós um refúgio. As palavras mais belas somem-se um pouco antes de serem escritas. O seu encanto é tão prudente que morrem enroladas dentro da sua própria beleza. São como os pássaros de inverno. A luz do luar cobre agora o nosso rosto com a sua doçura lívida. Os campos ficaram húmidos. As florestas cerraram-se em si mesmas. O sol está do outro lado do mundo expondo a sua perfeição distante. É noite. Abrimos as mãos e os corpos. Somos como duas estrelas que se atraem rodeados por este silêncio ensurdecedor.


publicado por João Madureira às 07:15
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