Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

Poema Infinito (233): luz

 

O vento na varanda procura a tua voz. A tua voz de ouro vem de cima. O silêncio é o seu tímpano secreto. Os teus olhos de água possuem a forma das marés. Conténs a transparência e a densidade das emoções profundas. O teu corpo sopra a luz. As fontes do tempo ficam iluminadas. O ar transforma-se num diamante. A singeleza das palavras bate na tua pele e perpassa a paisagem do teu sexo. O tempo fica fecundo. O vento na varanda transforma-se numa história brusca de amor e ânsia. As constelações do desejo tornam-se violentas. A cidade adquire a instantânea turvação das borboletas, o calor abundante de agosto, os sinais azuis do firmamento. A cidade é agora um sinal oculto de prazer. A matéria libidinosa transforma-se numa onda, num número perfeito. Seres extraordinários saem das casas carregados de gestos imóveis. As criaturas carregam nos rostos o tempo devastado. As palavras suspeitam do árduo ofício de inventar a vida. Fingem-se frias e descansadas dentro dos nomes, como se quisessem ocultar a fluência das estrelas. O tempo ganha a lentidão azul do céu e dissolve-se na areia. A luz arrasa tudo à sua volta. Os nossos olhos brilham com a lentidão oxidada da memória. Adquirem a quase perfeição da desordem da matéria. O caos é a lei da ordem. Enfrentamos o tempo com a nossa pequena voz, envoltos na subtil brancura da paixão. Por vezes a humanidade abandona-se aos monstros e põe em marcha o motor dos pesadelos. Ainda há quem acredite em cegos visionários e em deixar-se guiar por eles. A sua aceleração cria o vácuo. Creem na capacidade de renascer pelo fogo. A sua memória esquece tudo. As palavras arrefecem-lhe nas mãos. Por vezes enlouquecem. E falam da razão que existe dentro da razão e da sua infância ressuscitada. A luz fica então difusa e a sua voz dispersa. Todo o movimento é uma queda. O excesso de luz magoa tudo. É impossível navegar no meio de tanta fascinação. O tempo carrega-se de deslumbramento e solidão. Sentamo-nos em cima da arca dos desejos para os proteger. As casas ficam monótonas tentando reproduzir a ressurreição dos sonhos. O verde viaja pelas árvores. Deus serena a voz louca dos átomos. As almas convertem-se em sombras e os cérebros transformam-nas em luz. Os caminhos alongam-se. A água cintila junto à erva. As pedras das casas abandonadas ficam violentas. Olhamos o mundo por entre os pinheiros. As formigas florescem cinzentas dentro dos seus carreiros. O vento canta nos choupos o seu desalento e a sua inútil transparência. A distância da solidão começa a doer-nos. Deus aproxima-se da gravitação das estrelas. Possui a eterna e inútil sabedoria de não tocar em nada. A sua epifania é como um corpo devasso. Raras são as suas recordações. O seu coração possui a desordem do universo e a liberdade da distância. Abrimos as janelas para que a noite as atravesse sem as magoar. As portas continuam abertas dentro do nosso peito. O amor é como uma vasta depressão no tempo e pousa em nós como as mãos das mães ao acariciarem os seus filhos quando adormecem. Os seus sorrisos ficam então leves como o vento. Quando se amam as aves, o mundo gira com a amplidão da vida. As tuas mãos pousam suavemente sobre minhas. Na varanda, a luz do sol procura a claridade dos teus olhos.


publicado por João Madureira às 07:15
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