Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2015

Poema Infinito (234): o esplendor do poema

 

Somos felizes quando voamos sobre a lisura da tarde e o tempo adquire a plenitude aquática do espaço. As casas retêm o envelhecimento. A noite caminha devagar, como a idade. É chegada a altura de nos despedirmos dos montes e da sua abstração verde. As aves dançam por cima da lucidez e abrem a eternidade ao mundo. As aves sulcam o azul e o esplendor das coisas. A base do seu voo é a nostalgia. O rio impõe as suas margens ao vale e vinca assim os pontos agudos da sua caligrafia alegre. O olhar puxa pela densidade que transportamos dentro de nós e fixa-se na transparência surreal dos barcos. A transcendência surge como a ponta de um véu invisível. Cumpre-se então o espírito das coisas. Lá ao longe deslizam as traineiras. A sua glória é pacífica. As suas quilhas rompem o nevoeiro que se espalhou sobre as águas. A bruma desprende-se dos pinheiros. O tempo fica tépido como se fosse em eco. Alguém dá brilho à solidão da aldeia. Com os nossos filhos vem a luz, a memória das suas brincadeiras, os seus olhos sorrindo, o amor fixado nos seus dedos como se fosse sal. A madrugada desfralda o rasto da luminosidade que deslumbra o mundo. A noite foi mais um esforço para não enlouquecer nas suas redes, nos seus sobressaltos. Sentimos a vacilação dos astros enquanto o mar recuava na praia. Aos poucos, a praça surge perante nós jubilosa e inquieta. As ondas profundas tornam o tempo agudo. Os pescadores vão rompendo o seu caminho. O mar redime-lhes os vultos. A claridade intensa da manhã transforma-se em movimento acústico. O sol amornece a lisura do rio. Uma brisa fresca sopra sobre a nossa idade. O tempo fica mais aberto refletindo a luminescência da chuva. Recolhemos o silêncio e o seu infinito imenso. Afinal os deuses estão vivos. E escutam. E sentem os nossos corpos acesos. E sentem ainda mais o peso íntimo da sua angústia. A idade costuma abrir caminhos e reconhecer nomes. Descemos o rio em paz. Na mesma paz que o rio costuma transportar. O azul do céu fica ainda mais azul e mais aberto como se fosse um buraco jubiloso. Submetemos as palavras ao voo abstrato dos livros e elas adormecem. O azul desce sobre elas como se fosse um anjo. Ainda confio no seu assombro. O largo da aldeia ondula por dentro como se fosse invisível. Em tempos foi como uma flor aberta. Possuía a eficiência da vida e deixava-se inundar de resplendor. A evidência do tempo matou-o. Tudo se perde na abóboda infinita do espaço e do tempo. As despedidas apagaram-se da memória de quem as viveu. Todos temos de cumprir o ímpeto inexorável do desaparecimento. A felicidade explicita-se no seu sinal de fronteira. É daí que nos escuta. Contamos os passos graves que a velhice nos obriga a dar, orientando-nos no seu esplendor vagaroso. A lucidez move-se dentro de nós como um réptil. A festa despede-se das pessoas e da tarde. Sentimos a sua gratidão como uma grande distância. As promessas ficam invisíveis. O trabalho ilumina-nos a paciência. Um enxame de luz transforma-se numa aragem. Com ela finda esta pequena eternidade. A nossa imagem fica de pé à espera de implodir. Ajustamo-nos ao interior da nossa incandescência. O tempo revela os vestígios das cicatrizes antigas. A verdade, a infância, o silêncio e o espanto crescem por dentro. Aí reside todo o esplendor do poema.


publicado por João Madureira às 07:15
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