Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015

Poema Infinito (236): origem

 

Podemos e devemos ser simples e calmos como as árvores e as fontes. Daqui observamos toda a terra e parte do universo. Dói-nos a imaginação. As casas das cidades fecham-se por dentro e por isso escondem os horizontes e empurram os olhares para bem longe do céu. Ontem desci para a minha aldeia pousado num raio de sol antigo. Crianças lindas limpavam o nariz, riam naturalmente e chapinhavam na água. As mães colhiam flores antes de as arrumarem e esquecerem dentro dos seus olhos. Os pastores liam o tempo e a natureza antiga. Os riachos desciam do cimo do monte. A luz batia na relva. A tua mão leve passou-me o agrado da brisa. Os olhos ficaram com a precisão dos outeiros. O dia ficou então excessivamente nítido. Fomos pelos campos fora colher reparos. A realidade ficou a olhar para nós. As janelas abriram-se projetando a sua filosofia inventada. As máquinas compuseram pequenas peças de felicidade. As crianças ficaram de repente desconhecidas e espantaram-se com a realidade das coisas. Os seus desassossegos ficaram imensos. Nada mais lhes resta do que seguir o seu destino. A fúria é um mecanismo de excesso. A vida constrói-se segundo a lei dos mecanismos dos desastres. A luz fica dolorosa. Remanescemos com os lábios secos. Os ruídos do desaparecimento expandem-se em linhas simétricas. As catástrofes irrompem dentro das almas dos deuses. As noites antigas vestem-se de infinito. As casas ficam pálidas como se vestissem crepúsculos invisíveis.  A aldeia envergou a terna angústia da inutilidade. O horizonte ficou lívido. Os pássaros rumaram a sul. As estrelas voltaram a luzir nas tuas mãos. A noite caiu de repente como se não conseguisse começar a ser real. Dentro das minhas mãos começou a surgir a sensação exata do tédio e a misteriosa unanimidade das almas transgressoras. O desejo é uma inquietação profunda. Sonhámos com a existência plausível de um Deus exterior às horas e às sensações. Os nossos olhos contentaram-se em ver o impossível. Os segredos transformaram-se em silêncio. O amor metamorfoseou-se numa doçura dolorosa. Tudo se nos revelou diferente daquilo que pensávamos. Os navegadores do tempo fartaram-se da misteriosa solidão do mar e rumaram às ilhas mais longínquas do universo. Os seus navios ficaram abstratos e passam cada vez mais longe dos nossos portos de abrigo. O mundo tem agora o sabor das coisas do deserto. Sentimos morrerem-nos no peito as metáforas, as imagens e a literatura. Os homens continuam a fingir-se gloriosos. E narram factos sinistros. Os seus olhos dilatam-se e ganham uma espécie de ânsia violenta. As suas vozes ficam surdas e as suas almas omnívoras. Por fim as portas abrem-se aos versos. Os nossos corpos transformam-se em adivinhas. Deus vê-nos ao contrário. As horas passam sem nos tocarem. O prazer é uma nova angústia. A tua ausência é mais nítida durante as manhãs. A floresta que nos rodeia encheu-se de árvores e esquecimentos. Chegou a noite. Os nossos propósitos ficaram ainda mais incompletos. O universo remanesce ainda mais subjetivo. Os sorrisos transportam agora paz. Sonhamos com a encantadora cavalgada da origem.


publicado por João Madureira às 07:15
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