Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2015

Poema Infinito (238): as duas portas dos sonhos

 

 

Os pais são sábios como as casas. Por vezes parecem insensatos, levantam-se como se fossem estrangeiros e partem das cidades. Percorrem os campos como se fossem servos. As mães indicam-lhes novos caminhos. Chegados a outras cidades, procuram os portos, entram nas ruas estreitas, visitam as tabernas e os templos. E sonham com arcos e flechas como se fossem guerreiros antigos. Depois embarcam em negras naus e agarram-se aos remos e aos mastros e vomitam. São homens da terra, feitos de giestas e urzes. Ninguém os censura, nem Deus. A sua alegria é cinzenta como o mar. A sua tristeza é cinzenta como o mar. Por vezes encontram indivíduos errantes que rezam repetidas súplicas. E choram. Lembram-se de serem estrangeiros na sua própria terra, de regressarem às suas aldeias mesmo antes de partirem, de reconhecerem as suas crianças, de caminharem pelos bosques, de se deitarem à sombra dos choupos na beira dos atalhos, de se deixarem ali ficar esperando o tempo e a sua magnanimidade. Chegam então os guerreiros do desespero, cercam-lhes as torres e os pátios, atravessam as ruas, deitam abaixo os portões das casas e atravessam as salas para se sentarem à lareira como se viessem das florestas geladas do norte. Adoram o fogo e apaixonam-se pelas mulheres que fiam lã da cor púrpura dos mares. À sua volta sentam-se as servas. Passam a idolatrar um homem que se senta numa cadeira alta, que bebe o vinho oferecido pelos devotos, abraçando as mulheres que se ajoelham na sua frente pedindo que as fecunde. Esse deus diz-lhes que a alegria se esconde sempre no tempo do regresso. Depois vão para os portos e embarcam em naus. Ficam tristes e vertem lágrimas. O vento incha as velas. Os homens tentam ser como a água profunda. Esperam que o sol se afaste, para se cobrirem de trevas. As naus chegam aos confins dos oceanos, onde encontram novas terras e novas cidades cobertas de neblina e nuvens. O sol resplandecente nunca ali entra, os seus raios perdem-se no brilho inóspito do firmamento. Um terror pálido apodera-se dos homens. Nunca viram tantas almas juntas. As almas dos mortos. As almas de mulheres jovens, mancebos, velhos e velhas. E de crianças. É-lhes difícil contemplar esses lugares. Os rios são grandes e assustadores. O tempo é como uma cova negra. Os pais permanecem nos campos, não descem às cidades, não possuem camas, dormem no chão como se fossem o inverno. Nenhum cumpre o seu destino. O que lhes aumenta a dor. Ficam todos velhos de repente. As suas mãos transformam-se em sombras. As palavras fogem-lhes da boca. Os seus sonhos possuem duas portas e são preenchidos por olhares vazios. Os estrangeiros asseguram sempre a desgraça dos autóctones. Os homens são involuntariamente tolos. Por isso ficam ansiosos e planeiam voltar às suas terras, mas a viagem de ida foi tão longa que já não têm coragem de se aventurarem no regresso. O mar afinal também é cinzento como a sua tristeza. E como a sua alegria. O sol resplandecente rouba-lhes a vitalidade. Presos no seu destino, veem chegar todas as mulheres em grupos, em grandes lamentações, derramando lágrimas, encostadas umas às outras, procurando os seus novos maridos como se já estivessem mortos. Lavam-nos com esponjas embebidas em lágrimas. Por fim, dormem com os seus pretendentes. Outro mundo vai ali nascer. A infelicidade é infinita. A felicidade também.


publicado por João Madureira às 07:15
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