Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015

Poema Infinito (239): a Deus

 

 

Crescem nos campos os tolos, os fantasmas, os homens famosos, os sonhos ardentes, a escrita mais engenhosa, as casas velhas, as mulheres ardentes, os filhos já feitos, as couves, os intelectuais, a perfeição dos colegas e as ameixoeiras. As raparigas enlouquecem improvisando sonetos e música jazz, a poesia dança nas praias, as almas dividem-se e trepam pelos troncos das árvores mais altas, os príncipes ajoelham-se em frente das suas princesas e esfolam os joelhos no veludo áspero dos tapetes mais antigos. Declaram-se heroicamente perdidos. Depois deixam-se envolver pela música mais desesperada e constroem a partir daí o seu triunfo. O povo transporta os fardos e carrega os cestos para a festa. A revolução que está para chegar é precedida pelo cheiro a pólvora. Um pobre a cavalo chicoteia um mendigo que o segue a pé. Após a revolução, o mendigo monta num burro e chicoteia o pobre que o segue de joelhos. Os bardos cantam o tempo que se perdeu. Novas batalhas se irão travar. Dizem que o reanimado rei é melhor do que o anterior. Os seus soldados açoitam de forma diferente. Fazem-no apenas quando nasce e se põe o sol. Os economistas planeiam os números com novo vigor. Mesmo não se mexendo, parece que se mexem. A sua lógica é feita de mármore, ferro e bronze. As raparigas e os rapazes ficam pálidos por causa do amor. Tudo volta a ser imaginado. As camas ficam mais isoladas, a paixão desenha-se a prumo, a meia-noite adquire lábios vivos e ardentes, o caráter passa a ser como uma praça pública. Os homens do poder, armados com martelos e cinzeis, modelam o homem novo. Calculam a sua nova dose de vulgaridade, a sua indistinta retidão, o seu imprescindível nível de submissão admitida. Fornecem-lhes os sonhos e as mulheres vestidas dentro dos espelhos. Atravessam-lhes as cabeças com imagens de felicidade. Sentam-nos à sombra, arredondam-lhes a bondade e a vontade, programam-lhes os pecados e as virtudes. Tudo neles cresce como uma irrealidade, transformando-os em espelhos que se refletem noutros espelhos até ao infinito. Benzem-lhes as horas de trabalho e anunciam-lhes a grandiosidade das divindades que estão para chegar do além. Calculam os níveis de orvalho das madrugadas, a intensidade da chuva, a beleza necessária dos rios e dos mares. Escolhem os suspiros de amor, as canções para o coro dos anjos, os níveis de sal para as lágrimas de felicidade e para as de dor. Definem o imprescindível número de jovens mortos para conservar a pureza da literatura de amor. Abrem feridas nas fotografias de arte. Estampam águas atónitas nos olhos da realeza e rodeiam-na de golfinhos majestosos e sorridentes. Os seus gritos são doces, os seus passos ancestrais. Coros de anjos fazem perpassar as suas melodias por cima do clero que abençoa o rei e a sua coroa de louro e azevinho. As ninfas desnudam-se e copulam com os sátiros, perante a raivosa perplexidade dos cavaleiros do apocalipse. O amor voltou a cegá-los. Os construtores do novo mundo inundam-lhes a cabeça com ciúmes. O céu fica frio. Os seus desenhadores não conseguem iluminá-lo com a tradicional miríade de pontos cintilantes. Os homens ficam com os corpos inclinados e separam-se do seu tempo de paixão. É o sétimo dia da criação e o amor declina, os corações ficam inconstantes, Deus lamenta que a eternidade o aguarde de novo. Sente-se como um pastor na margem de um lago vendo cair as folhas de outono. A vida é um contínuo adeus.


publicado por João Madureira às 07:15
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