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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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05
Mar15

Poema Infinito (240): a linguagem do desaparecimento

João Madureira

 

 

Não me peças para ver a tua alma. Há coisas sagradas. A que trago presa no meu peito tem a forma e o semblante de mim próprio. Possuí a fisionomia das substâncias mais simples, a alegria imóvel das árvores, o espírito dos rios que correm sobre as rochas e as areias. A minha alma alimenta-se da tua. As nações ainda esperam pela alma dos seus poetas, pois a sua boca é fluente. A terra continua a ser infindável, as horas impercetíveis, o amor irreprimível. A natureza tem de ser novamente persuadida a sublimar o futuro. Os pássaros animam os bosques. Os nomes dissipam-se. O futuro fica imediato. A literatura é uma nova religião. Os meus poemas deitam fumo como as chaminés no inverno. Os meus poemas são emigrantes estranhos, chegam e partem sem desembarcarem. No entanto a sua terra é a mesma. As casas são as mesmas. Os bancos, os caminhos, as folhas das árvores, as pastagens e as florestas também são os mesmos. Os meus poemas possuem agora cidades no seu interior. Nos seus limites, os camponeses lavram as suas terras fortemente cingidos pelo abandono. O dia e a noite são alusões suspensas, cheias de credos e ave-marias. O bem e o mal correm os seus próprios riscos. As casas estão cheias de perfumes naturais. Nas ruas ecoam os pequenos murmúrios do desejo. As palavras ficam com o aspeto de folhas verdes das cerejeiras. Rejeito alimentar-me dos espectros dos livros. Para mim não há nem princípio nem fim. Nem perfeição, nem imperfeição, nem velhice, nem juventude, nem céu, nem inferno, nem deus, nem demónio, nem pecado ou virtude. Para mim não existem opostos, apenas uma substância cristalina em expansão, que se entrelaça nos sexos e avança na multiplicação da vida. Eu confio nos pormenores. Acredito nos animais afetuosos, no orgulho elétrico das almas genuínas, na invisibilidade de tudo que aparenta visibilidade. A primeira luz do dia entra em casa com os passos furtivos da juventude e cobre as toalhas brancas com a sua profusão. Todas as coisas importantes chegam até mim carregadas de tensão e impulsos contraditórios. A minha alegria é complacente. O meu jogo é ficar de fora observando a retórica do adversário. O amor tem a forma de um hieróglifo, por isso as mães amam os seus filhos com a dimensão das regiões mais extensas do planeta. Quem me dera poder traduzir as memórias que encerram a alegria já extinta dos que foram jovens sem o saberem. Mesmo dentro da felicidade, tudo desaparece. Desaparece a terra, desaparecem as estrelas. Os princípios do desejo são como uma multidão exaltada. As pedras das ruas ficam momentaneamente invisíveis. As vozes transformam-se em ecos. Chegam os sonhos. As portas dos celeiros abrem-se para deixarem entrar a luz límpida da tarde. As crianças dormem nas carroças. As montanhas começam a ficar longínquas, como se fizessem parte de um filme. Os homens acendem fogueiras e deitam-se sobre as folhas. As mulheres mais jovens descobrem as suas cabeças e mergulham os seus longos cabelos na água dos ribeiros. Depois lavam o sexo. O sol incide sobre o pitoresco corpo dos mancebos. O tempo mata toda a beleza da ingenuidade. Por isso deixei de crer no desígnio de todos os seres alados, porque os vejo presos ao leme de uma nave que dispersa a verdade e a vontade. As palavras deslocam-se sem sentido pelas diferentes partes do corpo. Espalho-me pelas ruas segundo a lei do caos geográfico. Aprendi que é nos dedos que começa a desordem do amor. Escrevo com a noção exata do desaparecimento. O tempo ressurgirá transformado em imagens. A linguagem do desaparecimento é como uma festa de crime e castigo.  

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