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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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25
Jun15

Poema Infinito (256): o homem do medo

João Madureira

 

 

Um homem espera oculto pela esbelta sombra dos amieiros. Corre uma ligeira brisa. Pergunto-lhe porque está em silêncio. Ele responde-me irrompendo da sua obscuridade vegetal. A sua voz revela uma aveludada independência repleta de acentos brilhantes. Disse-me que veio das regiões inconcebíveis das auroras boreais, dos domínios frios do norte, lá onde os cisnes sulcam as águas serenas, repletas de sossego. Os sinais que transmite são inefáveis, cheios da benfazeja dissolução de tudo. O seu medo surge da polidez das rochas onde foi criado, das imagens geladas que lhe transmitiam os espelhos de água, dos sinais perpétuos difundidos pelos navegantes fantasmas. Também ele foi um navegante perpétuo até encalhar na nossa terra. As aves vigiam-no. Ele vigia as aves. Anuncia então os seus poderes, que agora sente serem espaços sem desígnio, nem evasão. Diz-me que cada um de nós existe para cumprir com o seu próprio exílio. Depois os seus gestos envolvem-no e uma brisa silenciosa desce sobre nós em forma de inquietação. No seu mundo tudo é nomeado em forma de proteção, para alívio dos transgressores. As vozes não têm eco. Na sua cultura não existem conclusões. O tempo tem a forma de paciência. As pessoas nunca esperam. O seu olhar é neutro como o das sentinelas ou dos cisnes que deslizam pelos lagos. Todos os gestos são ambíguos. Das torres mais altas das cidades partem as ordens dos que aprenderam a ordenar. As armas são ilusórias e surdas. As pessoas são sempre fiéis ao seu destino. Os apóstolos nunca saem dos seus abrigos com medo das palavras do seu Deus que reina sobre os hereges. As palavras desse Deus uno e indivisível são impiedosas, são como frutos amadurecidos pelos milénios. O povo de lá emigra e regressa constantemente, cego pelos 1022 versos hexâmetros da teogonia de Hesíodo, pela luta entre irmãos, pelas façanhas desenvolvidas em alto mar, onde se incendeiam os barcos, se massacram as tripulações, onde as maiores façanhas são engolidas pelas águas revoltas e os destroços descansam nos abismos mais profundos dos oceanos. Lá os santos são identificados pela febre alta que desenvolvem quando falam em nome de Deus. Naquelas terras de longe, o saber do futuro elabora-se sempre a partir da minuciosa ruína do conhecimento do passado. Os sonhos dos homens consomem toda a glória de Deus. O homem escondido mostra-me as suas mãos tão pálidas como as promessas da vida eterna. Noto-lhe no rosto todo o afastamento contido nele. Digo-lhe que na nossa terra chegou o tempo de trabalhar os campos. Ele tenta falar, mas apenas emite sinais de impaciência. Os seus olhos azuis estão cansados e já não olham para as coisas deste mundo. Conta-me que os seus antepassados foram andarilhos, navegantes, lunáticos de todos os credos, guerreiros audaciosos, defensores de reis altivos e reinos desventurados e de cavaleiros dedicados à conquista da Terra Santa, seguidores de profetas que tudo viam e nada diziam, que cavavam sepulturas com as suas próprias almas. A boca do homem oculto parece cinzelada, de tão perfeita. As suas narinas parecem as de um animal que pressente o risco de qualquer contacto alheio. Olha para mim com um ligeiro assombro. O sangue foge-lhe das faces. Agora parece um retrato. Olha fixamente para uma barca parada no meio do rio. Ergue os braços. De seguida desce-os na minha direção. A sua sombra percorre o meu corpo. Fecho os olhos. Oiço então a água a correr nos regos. Tudo em volta é agora silêncio. O esquecimento purifica, escrevo na minha memória.

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