Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

Poema Infinito (263): a aprendizagem do desaparecimento

 

 

Ontem fui ver as rimas que crescem nos campos entre os álamos e o milho. A sua voz continua tranquila, como os gestos dos filhos no momento de adormecer. Os pilriteiros floresciam de saudade. Os homens olhavam a verdade de frente e endureciam as linhas do rosto. Lembrei-me então dos dias que eram como espelhos onde as águas corriam redondas e serenas. O comboio ainda passava lá em baixo lento e vago como as orações. Os figos eram da cor do oiro ardente e tão doces como a voz da minha avó. Ela costumava lavar logo de manhã o seu cabelo branco, o seu rosto fino e a sua voz pura. O amor pelo meu avô já falecido doía-lhe como se tivesse silvas em volta do coração. O seu silêncio tomava conta das paredes, do tempo e das janelas fechadas. O silêncio subia as escadas, tomava conta da cozinha e adormecia nas camas frias dos quartos. Por vezes os seus olhos transformavam-se em cristais lunares que perseguiam as andorinhas. Ela sabia que a morte dos outros também nos mata a nós. Que é como os lobos que não vemos mas persentimos, como os lobos que nos perseguem com o seu olhar sossegado. A minha avó adormecia sempre de mãos abertas e sonhava com rosas doces misturadas com cravos de esquecimento que nasciam no meio dos campos verdes. As árvores tinham sempre a forma do desalento e cresciam como se fossem romances tristes cheios de pombas que procuravam a sua própria sombra nas águas dos rios. As ovelhas eram sempre brancas como os rebanhos de Deus. A minha avó também sonhava com anjos azuis que pronunciavam palavras desertas de sentido. Dizia sempre que lhe apetecia chorar. Então acordava e ficava quieta quatro ou cinco longos segundos. Depois olhava para mim e sorria como se tivesse visto o meu avô. Pelo menos era isso o que eu pensava. Também me lembro do meu avô e do seu rosto de soldado de uma guerra tardia, das pedras que atirava para longe como se fossem armas cegas, dos seus olhos que andavam sempre à deriva, das noites em que se esforçava para inventar os dias, dos seus ossos feridos, das suas palavras temerárias, da sua angústia quando me dizia que a sua vida era como palha centeia exposta ao vento. A sombra das árvores sempre lhe embuçou a vida até ao derradeiro momento em que entregou a alma ao criador e o corpo à terra que sempre o escravizou. Com as tábuas dos castanheiros talhadas pelo ferro do serrote e do machado construiu escanos, mesas, bancos e arcas onde guardava o centeio, o fumeiro e o pouco dinheiro que possuía. Andava sempre com o corpo moído de sono e míngua. No fim das refeições, quando comia à mesa, apoiava os cotovelos nas tábuas que aparou e contava histórias de abundância repletas de vacas de úberes cheios, de extensas planícies, de montes repletos de perdizes e árvores, de damas vestidas de linho branco e olhos enamorados que molhavam os pés nas águas limpas dos rios e dormiam a sesta debaixo dos salgueiros. Os seus contos duravam o tempo do seu sorriso. No fim, levantava-se ao mesmo tempo que o seu coração e ia aparelhar os animais na companhia da sua inseparável solidão. As noites gastava-as a arder como se vestisse pedras frias. A morte escolheu-o numa noite de distração. Isso é o que pensa a minha avó quando os olhos se lhe enchem de tristeza e morte.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
1 comentário:
De Cris a 14 de Agosto de 2015 às 17:37
Lindo!


Comentar post

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.pesquisar

 

.Abril 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. ...

. No Barroso

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

. No Barroso

. 436 - Pérolas e Diamantes...

. Na Feira

. Na aldeia

. Olhares

. Poema Infinito (450): O d...

. Vaca atenciosa

. BB

. 435 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. ST

. Poema Infinito (449): Inc...

. ST

. Na aldeia

. 434 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Mulheres

. Na aldeia

. Poema Infinito (448): O g...

. Na aldeia

. Na conversa

. 433 - Pérolas e Diamantes...

. No elevador do CCB

. Em Paris

. Em Paris

. Poema Infinito (447): Des...

. Em Paris

. Em Paris

. 432 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. ST

.arquivos

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar