Quinta-feira, 20 de Agosto de 2015

Poema Infinito (264): busca interminável

 

 

Procuro na noite os movimentos do tempo, as suas faces de cinza, o seu esplendor funesto, a sua alma líquida, as suas galerias subterrâneas, os seus séculos noturnos. As cidades brilham nas zonas periféricas. Os seus mitos são como bezerros de ouro. As suas leis não estão escritas nas tábuas de Moisés. Delas restam apenas as lendas e o pó infinito da paciência de Deus. Os céus começam a evoluir lentamente e não suspeitam que podem morrer de repente. Possuem a mesma fluência das plantas e a constante imensidão das realidades bravias. Brilhamos no escuro e honramos os fragmentos do apocalipse. Admiramos a liquidez do amor, a incansável desordem da matéria, e a sua suspensão, o denso desenvolvimento da gravidade, a subtil morosidade da paixão, os sorrisos nos rostos tristes, o motor das utopias, o labirinto das palavras, e o seu desânimo, o renascimento do fogo eterno, a memória do esquecimento, a poesia que se expande pelo mundo como uma sombra secreta, a luz que existe dentro da própria luz, a infância ressuscitada, o silêncio dos astros e o murmúrio salgado dos mares. A vontade expande-se e dilata-se com o calor do teu olhar. Houve tempo em que os ceifeiros cantavam sobre o cereal, agitando o tempo, enganando a fome e a sede. Obstinavam-se na sua sorte. Dançavam sozinhos. Erguiam muros de pedra e espantavam os desejos. Mais árduas que o trabalho eram as palavras cinzeladas pelos seus lábios. Fingiam-se frias e pousavam ocultas sobre as coisas bravas. As casas eram todas feitas de pedras e tempo e comportavam-se como buracos negros. A solidão era tanta que tudo tremeluzia em seu redor emitindo uma ténue luz radioativa. Deus era uma voz assustadora, agitando sempre a ordem. As regras da morte são sempre violentas. As janelas das casas são sempre sossegadas. O tempo é sempre denso e povoado de elevados ulmeiros e almas que se reproduzem dentro dos sonhos. Durante a noite viajo com a quietude das árvores. O vento sopra sobre os choupos. Sigo o carreiro onde cantam os pássaros e zumbem os insetos. O meu tempo passa sobre o tempo dos outros. Não consigo encontrar o banco de pedra sob o carvalho onde o meu avô se sentava comigo ao colo e me contava histórias cheias de um vento que soprava como se fosse uma voz efémera, onde os lagartos olhavam o mundo por cima da erva cintilante dos lameiros. Escutávamos a voz da terra, a deslocação da solidão, a aproximação e o afastamento do tempo, a gravitação da luz. Foi lá que aprendi a interpretar a liberdade das distâncias, a solidão das estrelas, a epifania da coragem, o receio em abrir a porta das recordações, a infindável diferença entre os seres humanos, a perseguição do desejo, as palavras que nos ajudam a vencer as separações. Então os dias começaram a ficar mais pesados e cheios de medo. Com eles, os homens começaram a erguer catedrais com ruínas no seu interior. E iluminaram as praças e o frio de natal. Os anjos começaram a escurecer. Deus carregou-os então com o pesado abismo das asas. No momento em que abri a janela caí abaixo da realidade. Aprendi que a alegria é uma espécie de imperfeição.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Julho 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9

20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. No Barroso

. Poema Infinito (465): Dor

. No Barroso

. Misarela

. 451 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos santos

. Na feira

. O pastor

. Poema Infinito (464): A á...

. O homem da concertina

. Notre-Dame de Paris

. 450 - Pérolas e Diamantes...

. Em Lisboa

. Em Lisboa

. Em Lisboa

. Poema Infinito (463): Fix...

. Em Paris

. Em Paris

. 449 - Pérolas e Diamantes...

. Retrato

. Retrato

. Retrato

. Poema Infinito (462): Sol...

. Retrato

. Retrato

. 448 - Pérolas e Diamantes...

. Paris - Trocadero

. No Louvre

. No Louvre

. Poema Infinito (461): Ent...

. No Louvre

. No Louvre

. 447 - Pérolas e Diamantes...

. Couto Dornelas

. Couto Dornelas

. Couto Dornelas

. Poema Infinito (460): A t...

. Couto Dornelas

. S. Caetano

. 446 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. Poema Infinito (459): O v...

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. 445 - Pérolas e Diamantes...

. Em Chaves

. Na aldeia

. Vilarinho Seco

.arquivos

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar