Quinta-feira, 3 de Setembro de 2015

Poema Infinito (266): a lei da gravidade

 

Quando te conheci vinhas sentada na primavera, aconchegada por sorrisos e o teu olhar estava repleto de lírios. Os meus olhos emitiam sombra, vento e desassossego. Mordia o tempo em busca das raízes do amor e da razão sem saber que eram incompatíveis. Todos nos esquecemos da casa dos pais, dos dias vazios, das mãos ásperas da solidão, da dor de Deus, do assombro dos momentos, das árvores importadas pela manhã, dos frutos com cheiro a vento e a sol. A ausência de quem amamos cresce como os nossos passos. A aurora compromete-nos com o futuro. O mar insaciável está repleto de infâncias, de pequenos destinos, do grito das gaivotas. Reparo ao espelho que meus olhos possuem o brilho da desilusão. Os meus passos afastam-me do destino, das grandes fontes de água cristalina, do meu anjo da guarda. Sou da condição da terra, vestem-me as árvores mais altas e as estações mais frias. Aprendi a perseguir-te pela doçura acre dos teus lábios. Equilibro-me entre o ser e o tempo. Molho os meus pés com palavras para caminhar até ao sítio onde nasceram os primeiros homens. Por vezes a alegria desce às ruas e aceita o sacrifício das manhãs. O sol afasta a neblina. Os candeeiros transformam-se em sentinelas do tempo. O vento veste as esquinas e leva-nos os pensamentos mais dolorosos. Os livros vão envelhecendo por dentro adivinhando a chuva, os dias morrem todas as noites pousados nas nossas mãos. A terra fica sem caminhos. As silvas e as rugas crescem por todo o lado. Quando tu vens, a solidão começa a correr na direção do mar, as aves levantam voo levando nas asas o orvalho da manhã. Caem-nos os gestos aos pés desintegrados pelas palavras que carregam o desejo. O dia fica redondo como a tua boca onde cabe o instante da paixão. A chuva cai curvada de circunstâncias e liquidez. Abrem-se as janelas. Os olhares levantam-se como se fossem nuvens empolgantes. A memória dos séculos caminha sobre o pó. As árvores mais radicais imolam as palavras insolentes envolvendo-as de verde e glória. Com as suas mãos pecadoras, os poderosos ungem as cidades para ganharem mais espaço onde irão plantar as sementes de betão e ferro. Abres-me os braços para recolher o meu corpo e a minha aflição. Os agiotas roubam-nos os abraços, hipotecam-nos os sorrisos e expropriaram-nos os beijos. Possuímos pequenas coisas gloriosas dentro de nós com que construímos o princípio da salvação. Um rio irrequieto desagua no nosso interior. As lágrimas de prazer são as nossas mais íntimas metáforas. No teu amor começam as minhas ruas mais íntimas, nele invento o céu azul, os choupos que deliram, pássaros impossíveis que levantam voo com mil cuidados. No teu amor acolho a minha infância mais profunda, as palavras mais ousadas, os números mais improváveis, as tardes mais interiores, os gestos que arredondam a luz e erguem os templos, a voz que aquece o voo melancólico dos melros. E aqui estou eu, na estrada das palavras, devorando o tempo, procurando a fonte da vida, pousando suavemente o olhar sob a nossa juventude, quando dávamos as mãos como se fossemos os anjos da ingenuidade e da transparência. Cada vez estamos mais perto do chão. Esta é a lei máxima da gravidade da vida.


publicado por João Madureira às 07:15
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