Quinta-feira, 17 de Setembro de 2015

Poema Infinito (268): a liquidez do silêncio

 

 

Procuro em ti os sintomas dos ínfimos pormenores que geram os milagres, as miniaturas dos assombros, as primeiras ideias logo após o apocalipse, as borboletas que geram o caos e depois a ordem. Desta vez vamos inaugurar um novo universo, recompor a natureza, participar na festa dos insetos e das aves, estudar a linguagem dos peixes e das cores. Os bichos assanham-se à procura da luz. As janelas estão fechadas. As mulheres olham o seu retrato e esperam. As raparigas admiram-se no espelho e desesperam. A lua estuda a noite e a retidão das árvores. O jardim pensa em rejuvenescer. O tempo não tem limites. O mundo renova-se durante a noite. Crescem as palavras junto aos jacintos. As rãs falam com a água, o horizonte encolhe-se, os homens percorrem a sua existência. As aves descobrem as origens dos seus voos. Com os nossos olhos desencantados recolhemos as ruínas. O silêncio apodera-se dos retratos. Passam as nuvens e nós dentro delas. Aprendemos devagar a imitar as auroras, a falar com as árvores e a desenvolver as gotas de orvalho. Os pássaros arriscam-se a sulcar o azul do céu. O nada aperfeiçoa a metafísica. As palavras invadem o tempo como ervas efervescentes. Cada coisa tem o seu desígnio, cada cor o seu êxtase, cada palavra o seu chão. As pedras revestem-se de musgo e esperam pela eternidade. Concluímos o amor ainda antes do amanhecer. Como poeta aprendi a lamber as palavras. Não são doces nem amargas, são salobras como a água dos estuários. As giestas possuem a mesma sintaxe das lagartixas. As brisas vêm sempre em silêncio e tingem-nos de azul, a cor preferida dos deuses. Passo os meus versos pela água. O coito possui as letras todas. Na boca cresce-nos o espanto. As casas começam a morrer por dentro. Os seus telhados possuem o odor do desaparecimento. As terras são sitiadas pelo abandono. Todos os caminhos vão dar a caminho nenhum. As palavras adormecem e muitas delas são apagadas pela perfeição do nada. O seu silêncio é líquido. Não é o sentido normal das palavras o que compõe os poemas. Até as fábulas se transformam na sua própria metamorfose. Os contadores de histórias têm medo da lucidez. As aves voltam da ilha carregadas do perfume dos vulcões. Todas as manhãs rego o princípio de uma planta que não sei se vai crescer. O meu avô apareceu na sala de mãos levantadas. Reconheço-o pelas reentrâncias dos seus dedos. Flutua pelo espaço segurando o bilhete para a sua última viagem. Os pássaros pousam nos galhos das árvores e nos braços do meu avô. A sua voz adquiriu um tom vegetal. O desaparecimento enublou-lhe a imagem. Uma nova manhã começa nos meus olhos. As flores da casa alimentam-se de silêncio. As estradas estão mais sujas. As palavras ardem, passam por dentro da beleza e ficam como bichos contrácteis. Incendeiam-se os campos, afundam-se os rios, nascem os murmúrios. Dissolve-se o tempo. Os meninos arrancam das paredes os restos das sombras. Continuamos a esperar pelos sonhos. As trepadeiras acordam enredadas nas suas próprias raízes. As madrugadas enchem-nos o quarto do cheiro a fruta. Recolhemos nos espinheiros os cereais e as palavras mais verdes. Os pássaros amargam a boca dos anjos. Caiu agora no mar a última estrela da noite. É hora de dormir.


publicado por João Madureira às 07:15
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