Quinta-feira, 24 de Setembro de 2015

Poema Infinito (269): a lei da vida

 

 


É tempo de apagar o fogo das minhas fantasias e de me concentrar no delicioso assombro dos teus olhos. Libertei-me do absorto estigma dos escolhidos, do resoluto caminho dos louvadores, da reverente distância dos poderosos. O meu caminho é outro. Persigo o desejo insensato de acelerar a letargia do tempo. Os sonhos movem-se em pesadas carroças que andam por caminhos silenciosos. A pele greta, os olhos queimam-se. A memória transformou-se em vários elementos dispersos. Os corpos conservam a sua frágil armação. Muitos deles são agora pálidos frutos estéreis. É a lei da vida. Louva-se o esquecimento que avança através das pedras e da excelsa estirpe dos séculos. São ainda vastas as janelas da madrugada. É inebriante o orgulho do tempo. Os humanos conquistaram os territórios com a confusão das guerras, fazendo submergir as estátuas mais violentas. Acenderam-se fogueiras nos caminhos, já cicatrizaram os lamentos, mas os deuses defensores da fé redentora continuam insaciáveis. Pregam-se doutrinas antigas, as águas da verdade são misturadas com a história gordurosa. Alguns homens enfunam-se de soberbo prestígio e morrem sem acreditar na impúdica evidência da mortalidade. Andamos com os sonhos às costas percorrendo os caminhos de sempre sem sequer nos apercebermos da frescura do vento que anuncia a tarde. As andorinhas vigiam as nossas insónias. A paz e o tempo diluem a memória dos mortos. Sinto-me como um agricultor plantando eucaliptos na areia de uma praia. Os faunos acendem as luzes nos bosques para atraírem as fêmeas mais jovens. Elas levantam os vestidos e mostram a sua nudez. E gemem. Os seus corpos são brancos. A água do rio lavará as impurezas e renovará as fontes do desejo. É a lei da vida. A incredulidade tem sempre um motivo. A felicidade não. Os guerreiros dos sonhos esperam há anos pelas suas cavalgadas mais furiosas, arrancando-nos do leito durante a madrugada. Começa assim a longa viagem dos pesadelos. O musgo cobre as paredes. Criaturas esquecidas habitam as ruínas. Nos pátios das casas aninham-se as sombras. Os dias são cortados pela lâmina das horas e ficam mais finos. Uma chuva insistente faz crescer a erva da dor. Os carris dos comboios que marcavam a terra e definiam o trilho oxidaram de maneira irreversível. Pisamos o pó da arca perdida. Os pássaros e os poemas fogem para longe. O seu ruído detém-se quando nos aproximamos. Lembram-nos palavras do passado, o seu espectro pálido, a chave que abre a porta das memórias, a solidão das construções antigas, os signos da transformação, os navegadores silenciosos, a divergente orientação do desprezo, a desordem do céu, a razão e o seu esquecimento. As crenças mais firmes transformaram-se nos desejos mais insatisfeitos. É a lei da vida. A cortina da janela ofusca-nos a vista da fúria das aves. Moderamos a voz, o orgulho e o desejo. Dissolvemos mais um pouco a esperança. Continuamos a desconfiar da serenidade das árvores mais frondosas, da condição do tempo, da verdura e da sua aparente maturação, dos sonhos mais detalhados, das lentas cerimónias da glorificação. Há muito que a música se calou. O vento lá fora continua a varrer o passado. Sem descanso. A vida continua a oferecer-nos o teorema delicado dos afetos e a ensinar-nos a irrevogável lei do desaparecimento.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | favorito (1)
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (486): Dis...

. Em Paris

. Em Paris

. 472 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos Santos

. ST

. Na cozinha

. Poema Infinito (485): Sed...

. Olhares

. Vacas e balizas

. 471 - Pérolas e Diamantes...

. Em Amarante - Cultura que...

. Na feira

. No Porto

. Poema Infinito (484): Eco...

. Chega de bois em Boticas

. No Barroso

. 470 - Pérolas e Diamantes...

. Interiores

. Castelo de Montalegre

. No Barroso

. Poema Infinito (483): Ilu...

. No Barroso

. Na aldeia

. 469 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Noturno

. ST

. Poema Infinito (482): Res...

. No Barroso

. No Louvre

. 468 - Pérolas e Diamantes...

. AB

. VS3

. VS2

. Poema Infinito (481): Que...

. VS

. CL

. 467 - Pérolas e Diamantes...

. Pisões

. Misarela

. Olhares

. Poema Infinito (480): As ...

. Na Abobeleira

. Barroso

. 466 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Alturas d...

. Em Coimbra

. No Louvre

. Poema Infinito (479): Ao ...

.arquivos

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar