Quinta-feira, 1 de Outubro de 2015

Poema Infinito (270): infinita dissolução

 

 

Todos os rios são sagrados. Até aqueles que o não são. Os olhos que os veem entretecem novas distâncias entre o sol e os jardins decalcados nos espelhos. A luz matinal rasga a complexa escuridão do que ainda resta da noite e ilumina os templos, as casas, os pátios e os cárceres. A cidade começa a transbordar para além dos seus limites. Em plena manhã, os sonhos mais inocentes crescem dentro de nós como ramos de árvores. O ar anuncia a solidão dos homens. O mar afunda-se. As imagens escondem a tua ausência. A piedade brilha nos olhos de Deus. Os olhares fixam-se nos objetos. A solidão é feita de lonjuras agrestes e de longas linhas de medo. As brisas transportam o pressentimento das montanhas. As varandas fecham-se à tarde. Os alpendres estão em silêncio. Nestes dias os anjos tapam a luz com as suas asas de medo. O tempo fica caudaloso. A sua amplitude alimenta-se de almas e de meias-noites magníficas e hiperbólicas. Lembro-me então dos teus olhos e da indecisão da sua luz. A antiga certeza das ruas começa a extinguir-se, as encruzilhadas mais escuras transformam-se em espelhos onde a sombra se esconde e onde o emudecimento se projeta até às distâncias mais infinitas. A ternura alastra quando estou contigo. Sou apenas anseio, como a primavera que se prolonga através das folhas novas. É impossível percorrer a costa sem se ficar maravilhado com a abundância de mar. A excitação da luz torna o espaço mais magnânimo. A imortalidade continua a percorrer o seu rumo impossível. As imagens da ausência regressam aos meus sonhos, como se fossem guerras antigas envoltas nos seus céus de derrota. O seu espaço é um deserto sem fundo revelando a imagem de um rei preso do valor e do prestígio da sua espada. O seu deus marca os homens e os cavalos. Entreguei os olhos à noite. Os cães farejam a chuva. Todos os caminhos estão agora mais perto, mesmo o caminho dos prodígios. Caminhamos toda a noite em companhia da inquietação. Ao amanhecer observamos atentamente a amplidão dos campos, os córregos mais fundos. Adivinhamos o sangramento do poente. Recordamos o ruído fatigado das carroças, os sulcos da terra, os carreiros e o vento que tudo ajuda a mudar. A vida assume novas palavras e outros silêncios. A alegria é uma espécie de memória dissipada pela obsessão do tempo. Durante a tarde começaram a aparecer os anjos escuros apregoando a intimidade nua dos beijos. Vêm de tão longe que não sabem se querem chegar. Observam o passado das ruas, a piedade dos animais, o cansaço das aves, a serenidade dos anos, as estrelas duplicadas pelo espelho das águas, os poetas escutando os seus versos, o estremecimento da terra, a invisibilidade dos dias, a solidão do mar e a sua cegueira.  Peço-lhes que me tragam as tuas estrelas, a firmeza da sua luz, o assombro dos céus, o destino e a sua eternidade. Dentro das casas os homens ardem como velas solitárias na sua rigidez de estátuas esgotadas. Tentam atrasar a sua infinita dissolução. Estão finalmente a libertar-se da memória, da esperança. Do futuro. As suas mãos desejam tocar as árvores pela última vez.


publicado por João Madureira às 07:15
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