Quinta-feira, 8 de Outubro de 2015

Poema Infinito (271): a luz gelada dos berlindes

 

 

A lua gelada faz de sinaleiro da noite. A cama quente envolve-nos como se fosse um pequeno barco a remos numa tarde de estio deslizando nas águas quietas do ribeiro. Através da luz que entra pela janela apercebemo-nos do mar. Pelos telhados andam gatos miando os seus cios. Ainda tenho o teu sabor na boca. Aves atravessam o que ainda resta do sono. Os minutos são tão incómodos como os insetos. Deslizo o olhar pela rugosidade das paredes. Deus inscreveu uma nova memória no empedrado das ruas mais antigas. Pressinto a pequenez da localidade pela pouca consistência das sombras. Irradias luz sobre os objetos que nos cercam. Conheço bem a consistência e a textura da solidão. E do amor também. As fotografias da família expõem o seu sorriso enigmático. Os rostos são meigos. Neles, a eternidade hibernou. Os corpos habituam-se à velocidade dos desejos. As palavras ficam-nos gravadas nas mãos. A memória inicia a sua fuga. Lembro-me dos comboios e da melancolia das tabernas, dos gestos pequenos dos bêbados, dos corpos nunca alcançados, do medo das vozes repentinas, de tudo se perder dentro dos templos, dos pátios, dos muros que dividiam as leiras, do grito dos pássaros, da visão imprecisa dos desertos, do sorriso das sereias, das casas pequenas, dos seus diminutos alicerces, da simulação do sono e dos sonhos, do teu rosto limpo pela chuva, das manhãs todas iguais, da descrição dos algarismos, dos arquipélagos de ar, das casas se desfazerem no crepúsculo, das mãos murchas dos avós, dos corpos redondos das mães grávidas, das flores murchas nas jarras improvisadas, do percurso sinuoso do tempo, do zumbido aflitivo das abelhas, das paixões que nasciam dentro do sono, dos quartos exíguos com cheiro a morango, da reprodução barata do menino e do seu anjo da guarda, da tosse do avô, das arestas dos dias, do nome das plantas, do cheiro dos perfumes em dias de festa, da função restrita dos objetos cortantes, da enormidade do mar exterior, da enormidade do mar interior, do vento que trazia dentro o cio dos animais e o espelhava pela aldeia, da noite e dos seus caminhos, da desolação dos espelhos, do aspeto inconsolável das ruas, dos sítios obscuros da memória, do estremecimento dos corpos, da religiosa dimensão das masturbações, do pavor das noites de ausência, das visões iniciais, dos sustos, dos sons circulares do amor e do desejo, dos sonhos interrompidos pela realidade da pobreza, da vida imaginada dos peixes, das aves extraviadas, da fome, da sede, da neve espalhada pelas ruas, do silêncio perturbante de alguns olhares, da diferença dos rostos e dos seus reflexos extraviados. Em cima da mesa repousam vários frutos. O seu cheiro voluteia e preenche a casa. O tempo continua a escrever sempre o mesmo livro, a ouvir as preces, a arquivar paixões, a ordenar memórias, a enxertar plantas carnívoras nos órgãos respiratórios, a substituir os pensamentos pelo vazio. Os anjos dos quadros mais antigos permanecem loiros, sorridentes e estáticos. A poeira da memória entra nos nossos olhos. Os manuscritos tornam-se ilegíveis. O nosso olhar, no entanto, continua preso ao vício ditoso das palavras. O berlinde e a caneta de tinta permanente ali estão ainda a fazer-me companhia. 


publicado por João Madureira às 07:15
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